Inspiração e Autoridade Bíblicas
Declaração da Igreja dos Irmãos de 1979
Considerando que alguns membros de nossa comunidade estão expressando preocupações sobre a visão dos Irmãos a respeito da inspiração e autoridade da Bíblia, e visto que nossa denominação é conhecida por afirmar: "Não temos outro credo além do Novo Testamento", recomendamos que seja nomeada uma comissão de cinco pessoas para preparar um documento sobre as compreensões históricas dos pietistas-anabatistas e dos Irmãos a respeito da inspiração e autoridade da Bíblia e apresentar um relatório à Conferência Anual de 1978.
Além disso, o comitê deverá apresentar posições representativas defendidas pelos Irmãos hoje sobre a natureza da Bíblia como nossa autoridade em matéria de fé e prática. Qualquer consenso que o comitê conseguir alcançar sobre a posição dos Irmãos hoje deverá ser declarado no documento. Finalmente, o comitê deverá oferecer algumas orientações sobre como podemos nos manter em amor e comunhão uns com os outros quando houver diversidade de atitudes entre nós sobre a questão da inspiração e autoridade bíblicas. Nesta seção do documento, deverá ser dada ênfase especial às publicações e aos documentos oficiais da Conferência Anual e da Diretoria Geral. O comitê será composto por três pessoas indicadas pela Diretoria Geral, uma pessoa indicada pela Irmandade de Avivamento dos Irmãos e uma pessoa indicada pelo corpo docente do Seminário Bethany.
Ata da Conferência Anual de 1977: Este item foi apresentado pelo Decano Miller, do Comitê Permanente. A proposta foi aprovada .
Relatório do Comitê de 1978
O comitê se reuniu duas vezes desde que recebeu a incumbência proposta pela Conferência Anual de 1977. Essas reuniões nos permitiram esclarecer o escopo de nossa incumbência, determinar os tipos de pesquisa necessários e começar a executar tarefas específicas relacionadas a essa pesquisa. Além do trabalho com recursos bíblicos e históricos, estamos buscando promover a discussão das questões em uma audiência na Conferência Anual de 1978 em Indianápolis.
O comitê ainda não concluiu sua tarefa e solicita mais tempo para fazê-lo. Prevemos apresentar o artigo que nos foi solicitado na Conferência Anual de 1979.
Relatório do Comitê de 1979
I. O próprio testemunho da Bíblia
Como devemos falar, de maneira bíblica, sobre a inspiração e a autoridade da Bíblia? Muitas vezes, as perguntas que fazemos são estranhas à Bíblia. Os escritores bíblicos demonstram pouco interesse em teorias específicas sobre inspiração e autoridade. Eles estão muito mais interessados em nossa resposta prática à palavra que Deus torna clara por meio de profetas e apóstolos.
No entanto, a Bíblia aborda as questões que temos diante de nós. Não apenas em textos isolados, mas também nas correntes e nuances de sua mensagem mais ampla, a Bíblia fornece uma estrutura útil para refletir sobre inspiração e autoridade.
(1) Deus fala! A imagem de Deus proferindo a palavra é central na Bíblia. Longe de ser um Deus silencioso e distante dos assuntos da vida, Deus continuamente nos fala de misericórdia e juízo. Assim, as Escrituras estão repletas de referências à “palavra do Senhor”, “palavra de Deus” e expressões relacionadas.
Às vezes, a palavra que Deus profere é vista como a poderosa fonte dos eventos históricos, um decreto que realiza o propósito para o qual Deus a destinou (Isaías 55:11). Outras vezes, é a interpretação dos eventos que Deus nos fornece para que possamos compreender o que está acontecendo (Amós 3:7). E, em outras ocasiões, é uma “espada de dois gumes” penetrante que revela nossa própria posição em relação a Deus (Hebreus 4:12-13). Dessas e de outras maneiras, Deus se expressa por si mesmo.
(2) Deus nos fala para criar uma aliança conosco. De todos os conceitos que esclarecem o propósito da palavra de Deus, nenhum é mais instrutivo do que o conceito de aliança. A Bíblia não apresenta Deus como alguém que profere verdades eternas para satisfazer os interesses especulativos dos teólogos. Em vez disso, Deus fala para nos atrair para uma aliança de amor inabalável.
Logo no início do relacionamento de Deus com Israel, Deus convida Israel a entrar em uma aliança e comissiona Moisés a estabelecer as “palavras” que compõem essa aliança (Êxodo 19:5-6, 24:7, 34:27-38). Quando essa aliança não alcança seu pleno propósito, Deus anuncia planos para escrever uma nova aliança nos próprios corações do povo (Jeremias 31:32-34). Seja por meio de tábuas de pedra, livros ou “cartas vivas” (2 Coríntios 3:1-6), Deus fala conosco como nosso parceiro na aliança.
(3) O Espírito de Deus nos capacita a falar a palavra de Deus uns aos outros. As vozes pelas quais Deus fala são vozes humanas. Embora tenhamos a inclinação de colocar “divino” e “humano” em oposição um ao outro, os escritores bíblicos não o fazem. Eles se alegram, antes, no fato de que o Espírito nos capacita a compartilhar a palavra de Deus na comunidade de crentes.
Assim, ouvimos falar de um dia em que todos terão sonhos, visões e profetizarão, quando o Espírito Santo capacitará todo o povo de Deus a falar (Joel 2:28-29, Atos 2:17-18). Assim também ouvimos falar da comunidade de crentes como um lugar onde o Espírito Santo capacita as pessoas a compreenderem os dons concedidos por Deus e a transmiti-los em palavras a outros (1 Coríntios 2:10-16, João 16:12-15).
Dentro dessa conversa mais ampla no Espírito, Deus chama alguns para falarem em Seu nome com autoridade especial. Assim, ouvimos falar de profetas que foram movidos pelo Espírito Santo para falar da parte de Deus (1 Pedro 2:10-12, 2 Pedro 1:21, Jeremias 1:9, Ezequiel 2:1-2, 3:4-11). Ouvimos falar de indivíduos específicos ungidos pelo Espírito para proclamar as boas novas de Deus (Isaías 61:1). Ouvimos falar de testemunhas apostólicas chamadas para testemunhar as obras de Deus em Cristo (Lucas 1:2, Atos 1:8, 21-22). Por meio das palavras que essas pessoas proferem, a própria palavra de Deus é revelada ao Seu povo.
(4) As palavras proferidas por Deus no passado continuam vivas entre o povo de Deus. A palavra de Deus não tem prazo de validade. Quando o Espírito Santo move alguém a proclamar a palavra de Deus, a palavra declarada torna-se parte da memória do povo. Seja oralmente ou por escrito, as palavras do passado são preservadas para o futuro e tornam-se base para novas declarações da palavra de Deus.
Assim, Jeremias recorre à aliança mosaica em seu ministério profético em Jerusalém (Jeremias 11:1-8). Assim, a história do êxodo pelo deserto dá origem à esperança de um novo êxodo para um povo exilado (Isaías 41:17-20, 42:16-21). Assim, a igreja primitiva se baseou nas promessas dos profetas para discernir o significado da vida de Jesus (Atos 8:30-35).
(5) Diferentes maneiras de falar em nome de Deus podem ser necessárias em diferentes gerações. Nem o povo de Deus nem o fluxo da história em que vivem permanecem estáticos. Por essa razão, a palavra de Deus nunca pode ser uma palavra estática. O que era uma palavra muito apropriada em um momento pode não ser a palavra apropriada em outro momento. Aqueles que falam em nome de Deus no relato bíblico não hesitam em encontrar novas maneiras de atender às necessidades urgentes.
Jeremias, por exemplo, rejeita as falsas esperanças daqueles que usaram a promessa de Isaías sobre a segurança de Jerusalém como base para a complacência moral (cf. Isaías 31:4-5, Jeremias 7:1-15). Jesus questiona a finalidade de certas partes da lei de Moisés (Marcos 10:1-12, Mateus 5:21-48), mesmo afirmando sua intenção de cumprir a lei em vez de destruí-la (Mateus 5:17-20). E Tiago contesta aqueles que deturparam a linguagem de Paulo sobre a justificação somente pela fé (Tiago 2:14-26). Destas e de outras maneiras, a Bíblia atesta o caráter crescente de seu testemunho.
(6) As Escrituras apresentam a palavra de Deus com poder e autoridade. Visto que aqueles que falam por Deus no relato bíblico foram guiados pelo Espírito Santo, toda a Escritura é atestada como “inspirada por Deus” ou “soprada por Deus” (2 Timóteo 3:16). A Bíblia, portanto, não é apenas uma grande obra literária, mas um cânone de fé e vida para a comunidade de crentes.
Assim, o salmista pode exaltar as palavras da lei como lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho (Salmo 119:105). Assim, as Escrituras podem ser aclamadas como “úteis para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2 Timóteo 3:16). Assim, Paulo pode chamar a mensagem apostólica de palavra de Deus, e não meramente de palavra humana (1 Tessalonicenses 2:13). Assim, Jesus afirma no Quarto Evangelho que “a Escritura não pode ser anulada” (João 10:35).
(7) Jesus Cristo expressa a palavra de Deus de forma completa e decisiva. Os escritores do Novo Testamento declaram em uníssono que Jesus Cristo revela o pleno significado da aliança de Deus conosco. Embora estejamos constantemente descobrindo novas maneiras de falar a palavra de Deus, a autorrevelação de Deus em Jesus agora estabelece as regras básicas para essa linguagem.
De muitas e variadas maneiras, o Novo Testamento afirma essa centralidade de Jesus: Ele é chamado de mediador de uma nova e definitiva aliança (Hebreus 9:15). Ele é aquele, diz Paulo, em quem todas as promessas de Deus encontram o seu "sim" (2 Coríntios 1:20), em cuja face contemplamos a luz do conhecimento da glória de Deus (2 Coríntios 4:6). Nele, o Verbo eterno se fez carne e habitou entre nós (João 1:14). Ele reflete ou representa o poder e os propósitos de Deus (Hebreus 1:1-3, Colossenses 1:15). Suas palavras são um alicerce sólido para a vida da igreja (Mateus 7:24-27). E seu exemplo de serviço é o modelo final para as nossas vidas (Filipenses 2:5-11). Por todas essas razões, todos os que desejam proclamar a palavra de Deus agora devem fazê-lo à luz da palavra de Deus em e por meio de Jesus.
(8) Deus nos chama a sermos uma comunidade fiel da palavra. Deus conta conosco para sermos parceiros responsáveis em manter a aliança viva e saudável. Embora os escritores bíblicos nunca nos chamem a crer nas Escrituras por si mesmas, eles convocam a igreja de várias maneiras a viver a mensagem que as Escrituras proclamam.
O próprio Jesus fornece o modelo para a igreja fiel aqui. Jesus valoriza e respeita o Antigo Testamento como recurso para o seu ministério de ensino (Mateus 21:33-46; Marcos 12:18-37; Lucas 11:29-32). Ele define a sua própria missão em termos de uma esperança bíblica num dia de salvação para os aflitos e oprimidos (Lucas 4:18-19). Ele critica aqueles que deixaram de lado o claro testemunho das Escrituras em prol das tradições humanas (Marcos 7:1-13). E ele recorre às Escrituras de várias maneiras para levar os seus ouvintes à compreensão e à decisão (Mateus 11:20-24; Marcos 2:23-28; 10:2-9).
Assim também nós devemos guardar e seguir a verdade que nos foi confiada pelo Espírito Santo (2 Timóteo 1:13-14). Devemos dar prioridade à mensagem que era de suma importância para a igreja primitiva (1 Coríntios 15:1-5). Devemos evitar distorcer a Palavra de Deus com nossas interpretações pessoais (2 Pedro 1:20). Devemos permitir que as Escrituras cumpram seu propósito original de conduzir outros à vida em Cristo (João 5:39-40). Devemos manejar a Palavra de Deus com integridade e transparência, em vez de manipulá-la (2 Coríntios 4:1-2). E devemos proclamar novamente as maravilhas do Deus que nos chamou das trevas para a luz (1 Pedro 2:9).
Outra preocupação de alguns membros:
Um dos aspectos mais convincentes da mensagem da Bíblia sobre si mesma encontra-se no testemunho de Jesus. Os saduceus (Mateus 22:24-32) tentaram armar uma cilada para Jesus, citando Deuteronômio 25:5. Jesus respondeu citando Êxodo 3:6 e disse que o que Moisés escreveu foi “dito por Deus” (Mateus 22:31). De fato, a visão de Jesus sobre as Escrituras era tão elevada que, em duas ocasiões (Mateus 22:43-45 e João 10:34-35), todo o seu argumento se baseou em uma única palavra do Antigo Testamento. Jesus considerava as Escrituras do Antigo Testamento como verbalmente inspiradas e totalmente confiáveis.Além disso, Jesus falou da criação de Adão e Eva (Mateus 19:4), do dilúvio que destruiu o mundo na época de Noé (Lucas 17:27), dos milagres realizados por Elias (Lucas 4:25), da baleia que engoliu Jonas (Mateus 12:40), da vida de Davi (Mateus 12:3), da glória de Salomão (Mateus 6:29), da destruição de Sodoma e Gomorra (Lucas 17:28-30), da provisão do maná do céu no deserto (João 6:31), etc. E em todo esse relato das palavras de Jesus não há sequer a menor indicação, em nenhum momento, de que as Escrituras possam ser imprecisas em algum ponto.
Além disso, Jesus pré-autenticava o Novo Testamento. Em João 16:12, Jesus declarou expressamente que deixaria “muitas coisas” por revelar; em João 16:13, Jesus prometeu que essa revelação seria completada após a vinda do Espírito; em João 17:20, Jesus esperava que essa nova revelação fosse registrada para as gerações futuras. É verdade que os apóstolos poderiam se esquecer do que Jesus havia dito, mas Jesus os assegurou de que não seriam deixados à própria sorte, mas que o Espírito Santo lhes traria à memória tudo o que Ele lhes havia dito (João 14:26). Não se pode compreender a atitude de Cristo em relação às Escrituras sem crer que era sua convicção de que elas eram isentas de erros. E quando descobrirmos o que Jesus pensava sobre as Escrituras, é isso que devemos pensar sobre elas.
II. A compreensão da Igreja ao longo da história
Os historiadores geralmente concordam que o nascimento cheio do Espírito Santo, o crescimento dinâmico e as lutas da igreja primitiva foram logo acompanhados por um movimento em direção a mais estrutura, ordem e autoridade. Eles apontam para o desenvolvimento de um ministério mais oficial, a formulação de credos e o processo de escolha do cânon. O cânon, que significa literalmente uma régua para manter as coisas em ordem, refere-se à coleção de livros que foram eventualmente aprovados pela igreja como parte das Escrituras. A luta pelo cânon ocorreu no segundo século, quando os cristãos, por um lado, se opuseram ao desejo de alguns de repudiar o Antigo Testamento, enquanto, por outro lado, rejeitaram a tendência de outros de negar a singularidade de uma nova aliança ou testamento. Por volta do ano 200 d.C., a igreja possuía uma coleção autorizada de livros do Novo Testamento, em sua maioria semelhante à nossa. Essa coleção representava um desejo de incluir diferentes visões e grupos de cristãos, ao mesmo tempo que excluía os piores erros.
Embora o cânone só tenha sido fechado dois séculos depois, a partir do início do século III, os principais debates na Igreja não se concentraram em opiniões sobre a Bíblia. Nenhum dos conflitos doutrinários dos grandes concílios ecumênicos envolveu um debate sobre as Escrituras. Os primeiros credos não incluem a Bíblia como artigo de fé. Muitas de nossas questões contemporâneas sobre inerrância e literalismo não representam as preocupações daqueles que viveram antes da era da ciência e da razão. Talvez seja por isso que os primeiros pais da Igreja possam ser citados para apoiar argumentos tanto a favor da infalibilidade bíblica quanto contra o literalismo bíblico. Católicos romanos e protestantes encontraram respaldo em Agostinho e outros pensadores da época para suas visões sobre a natureza da autoridade bíblica.
As visões e o uso da Bíblia pelos Irmãos não surgiram do nada. A Bíblia já havia sido o foco na definição de autoridade em várias tradições da igreja. As opções a seguir forneceram o contexto principal para as atitudes dos primeiros Irmãos.
Ortodoxia Oriental:
A Igreja Oriental tem uma visão elevada da autoridade da Bíblia, venerando-a no culto como um ícone verbal de Cristo. Em cada igreja, ela ocupa um lugar de honra; os fiéis a beijam e se prostram diante dela. Como livro do povo e da Igreja, contudo, a Bíblia jamais deve ser colocada acima da Igreja. A tradição apostólica da Igreja não é apenas mais antiga que o Novo Testamento, mas também sua origem. As Sagradas Escrituras são a forma escrita especial da tradição apostólica. Os credos e as principais decisões dos sete grandes concílios ecumênicos são formas altamente consideradas dessa mesma tradição. Embora, em muitos aspectos, o Oriente místico se concentre no culto pela visão em vez da audição, a Bíblia é apresentada e lida como parte integrante da liturgia. Interpretações pessoais, porém, não são confiáveis. Devem ser submetidas à orientação da Igreja. Ao ser recebido na Igreja, o convertido promete: “Aceitarei e compreenderei as Sagradas Escrituras de acordo com a interpretação que foi e é mantida pela Santa Igreja Católica Ortodoxa do Oriente, nossa Mãe”.
Catolicismo Romano:
Não se encontram afirmações mais fortes da infalibilidade das Escrituras do que aquelas presentes nos documentos do Catolicismo Romano. Isso é verdade apesar de os católicos romanos não se basearem exclusivamente na autoridade da Bíblia e incluírem em sua Bíblia os escritos apócrifos, que a maioria dos protestantes não considera como autoritativos. A diferença em relação ao Protestantismo reside não tanto nas questões relativas à autoridade, mas sim naquelas que tratam da fonte dessa autoridade. Os protestantes geralmente consideram a autoridade como parte da própria natureza da Bíblia. Assim como a Igreja Oriental, o Catolicismo Romano sustenta que a autoridade deriva da Igreja. Uma vez que as Escrituras se originaram na Igreja, esta permanece como guardiã e intérprete infalível da Bíblia. Cada vez mais, porém, os católicos romanos apontam para a unidade da palavra viva (a tradição) com a palavra escrita (a Bíblia). Isso faz parte do genuíno reavivamento bíblico, encontrado tanto em círculos bíblicos quanto no uso popular, que tem prevalecido entre os católicos romanos desde o Concílio Vaticano II.
Lutero,
no calor da batalha, o pai da Reforma Protestante formulou o lema " sola Scriptura" (sola Scriptura ). As Escrituras, e não papas e concílios, foram declaradas como a fonte da verdade e normativa para a vida e a doutrina. Nada que contradissesse as Escrituras deveria ser permitido. Assim como Calvino, Lutero defendia a estreita associação entre a Palavra e o Espírito. É o Espírito que valida, dá vida e unifica nossa interpretação da Palavra escrita. Os escritores bíblicos foram tão inspirados que se tornaram a língua, o instrumento ou o canal do Espírito Santo. Contudo, Lutero não sustentava uma identidade completa entre as Escrituras e a "Palavra" de Deus. Para Lutero, "a Palavra era Cristo". "A Palavra" ganha vida por meio da palavra falada na pregação, da palavra escrita na Bíblia e da palavra visível nos sacramentos. Ele se referia à Bíblia como a manjedoura na qual Cristo foi deitado. Foi essa distinção que permitiu a Lutero fazer muitos julgamentos críticos. Ele questionava se Moisés havia escrito todo o Pentateuco, acreditava que o livro dos Reis era mais confiável do que o de Crônicas, preferia o Quarto Evangelho aos demais e questionava o valor da epístola de Tiago e do livro do Apocalipse.
Calvino (Reformado)
conferiu à Bíblia um status mais claro e autoritativo do que Lutero. Segundo Calvino, as Escrituras deveriam ter para os crentes a mesma autoridade completa como se pudessem ouvir a voz de Deus diretamente de sua boca. Essa ênfase, juntamente com a importância que Calvino dava à lei moral do Antigo Testamento e sua continuidade com o Novo, colocou a Bíblia no centro da vida protestante. A doutrina calvinista do testemunho interno do Espírito Santo definia o papel do Espírito quase exclusivamente como um auxílio para confirmar a Palavra no coração e na mente do crente. Embora muitos tenham encontrado em Calvino a origem de posições fundamentalistas em relação à Bíblia, outros apontam para passagens em que Calvino enfatizou a autoria humana e definiu a revelação como algo que não deve ser identificado completamente com a Bíblia. Ao sugerir que os autores bíblicos dão um testemunho da revelação, e não da própria revelação, Calvino aproximou-se da posição de Lutero de sustentar que a autoridade das Escrituras reside fora delas mesmas, em Cristo.
Anabatismo:
Os contemporâneos radicais de Lutero e Calvino representavam uma ampla diversidade de crenças. Um grupo importante, frequentemente chamado de anabatistas evangélicos (rebatizadores), precursores espirituais dos menonitas contemporâneos, era coeso o suficiente para apresentar seus pontos de vista com mais clareza. Certamente, desejavam ser pessoas do livro. É verdade que muitas vezes eram acusados de exaltar o Espírito em detrimento da palavra escrita, mas o fato de serem frequentemente atacados como literalistas corrobora sua confiança na Bíblia. As primeiras confissões de fé revelam que consideravam como certas a inspiração e a autoridade da Bíblia. Possuíam um conhecimento extraordinário das Escrituras. Em uma carta pessoal, um anabatista do século XVI compartilhou a esperança de poder aprender cem capítulos do Novo Testamento de cor. Representativa de sua atitude é esta declaração de Menno Simons:
Todas as Escrituras, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, foram escritas para nossa instrução, admoestação e correção… elas são o verdadeiro cetro e a verdadeira regra pela qual a congregação deve ser governada. Toda doutrina e prática devem ser medidas por esta regra infalível.
Devido à identidade anabatista dos primeiros irmãos, será útil listar alguns dos elementos que compõem a atitude anabatista em relação às escrituras.
(1) A Bíblia é melhor compreendida quando a comunidade de fé se reúne em torno da palavra. O foco da infalibilidade passa do próprio texto e do especialista teológico tecnicamente qualificado para a congregação comprometida e atenta. A autoridade única da revelação de Deus em Cristo, encontrada na Bíblia, torna-se evidente nas relações de aliança da comunidade receptiva.
(2) Há uma insistência na presença do Espírito, a palavra interior. Isso não significa que o Espírito seja reivindicado como fonte de nova revelação, mas que a palavra exterior, as Escrituras, deve ser testada e apropriada à vida. O conhecimento bíblico separado da obediência amorosa da comunidade de fé é idolatria. O foco no Espírito também sinalizava que a congregação não deveria estar presa à tradição, aos credos ou à autoridade governamental em qualquer novo exame das Escrituras.
(3) Sem negar sua autoridade, sustentava-se que o Antigo Testamento não deveria ser considerado o padrão final para a obediência cristã. Contudo, isso não significava que a relação do Novo Testamento com o Antigo fosse de rejeição, mas sim de cumprimento. A relação era como a dos alicerces de um edifício com o próprio edifício. Essa capacidade de diferenciar entre as duas alianças sustentava as duas ênfases éticas mais distintivas dos anabatistas: a abstenção de jurar e a recusa em participar de guerras e derramamento de sangue, ambas permitidas no Antigo Testamento. A comparação entre os Testamentos também enfraquecia o foco protestante na continuidade entre a circuncisão judaica e o batismo infantil.
Ortodoxia Protestante.
No século seguinte à eclosão da Reforma, desenvolveu-se uma ortodoxia rígida, por vezes chamada por esse nome e por vezes denominada Escolástica Protestante. Na batalha de palavras que acompanhou a batalha de espadas, as próprias Escrituras tenderam a ser consideradas uma autoridade externa, concebida de forma legalista. A distinção entre Escritura e Palavra de Deus, e entre Escritura e doutrina, tornou-se tênue. Em vez de se basear na justificação pela fé, Aristóteles e a razão voltaram à moda. O cristianismo tornou-se cada vez mais intelectualizado. Em referência à Bíblia, inspiração significava infalibilidade verbal. J. A. Quenstedt, em 1715, declarou essa posição sem qualquer hesitação:
As Sagradas Escrituras canônicas, em seu texto original, são a verdade infalível e isentas de todo erro, ou seja, nas Sagradas Escrituras canônicas não há mentira, engano ou erro, nem mesmo o menor, seja no conteúdo ou nas palavras, mas cada palavra transmitida nas Escrituras é a mais pura verdade, seja em doutrina, ética, história, cronologia, tipografia ou nomes….
Apesar de tamanha exaltação das escrituras, quando a razão passou a dominar, os credos passaram a definir as escrituras, e não o contrário.
Pietismo:
Em parte, foi uma reação contra os fortes expoentes da ortodoxia escolástica que levou ao surgimento da Reforma Pietista nas últimas décadas do século XVII e nas primeiras do século seguinte. Afirmando manter-se dentro da tradição protestante, com sua insistência na autoridade bíblica, Philipp Spener e August Francke, líderes do pietismo eclesiástico, acreditavam que a Bíblia ganharia vida se fosse libertada de formulações dogmáticas. Desejavam mudar o foco da busca na Bíblia pelo que havia sido formulado nos credos para a verificação dos credos pela Bíblia. Defendiam que as verdades bíblicas fossem apresentadas com tolerância, amor e persuasão, em vez de serem usadas para atacar outros em controvérsias acirradas. Advocavam a leitura e o uso da Bíblia por todas as pessoas, incentivando reuniões em pequenos grupos e o uso devocional das Escrituras. Ambos os líderes acreditavam que o estudo bíblico deveria ter precedência sobre a teologia na formação teológica. Por meio de seu próprio exemplo, enfatizaram a importância de utilizar as línguas originais da Bíblia. Em consonância com seu apelo para que a reforma doutrinária de Lutero se traduzisse em uma reforma de vida, o pietismo deslocou o foco da Bíblia como um fim em si mesma para um meio de arrependimento, edificação mútua e uma vida de santidade. Em termos de método, houve maior liberdade na investigação do significado dos textos. Semelhante aos anabatistas, os pietistas consideravam o Novo Testamento como o cumprimento do Antigo, e Cristo era visto como a essência de toda a Escritura.
A ala mais separatista e radical do pietismo era aquela que constituía o ambiente imediato dos primeiros Irmãos. Esse movimento foi designado como pietismo radical. Em referência às escrituras, caracteriza-se por uma visão mais espiritualista, que se concentra na inspiração direta e imediata em vez das palavras escritas. O batismo interior é considerado mais importante do que as práticas externas. Jacob Boehme, um dos pensadores seminais do pietismo radical, teria ensinado: "Toda a Bíblia está dentro de mim". Louis Gruber, líder inspiracionalista e vizinho em Schwarzenau, defendia um chamado direto de Deus manifestado em sinais, milagres e profetas especialmente inspirados.
Os Irmãos.
A maioria dos primeiros Irmãos havia sido criada na tradição Reformada. Rompendo com ela, eles absorveram então tanto a ênfase no estudo bíblico quanto uma doutrina entusiástica do Espírito nos círculos pietistas radicais. Seu estudo das Escrituras os levou a mudar novamente sua identidade, adotando conscientemente a visão de discipulado e igreja reunida do Anabatismo. Não se pode ler os escritos de Alexander Mack sem notar sua forte dependência das Escrituras. Repetidamente, ele introduz seus argumentos com frases como esta: “Prestem atenção; explicarei isso a vocês a partir das Sagradas Escrituras”. Central para a abordagem histórica dos Irmãos à Bíblia são as seguintes ênfases ou características:
(1) A Palavra Interior e Exterior
Despertados pelas fortes convicções interiores dos pietistas radicais, os oito primeiros começaram a examinar as Escrituras juntos. Tornou-se óbvio que só poderiam levar a sério passagens como Mateus 18 por meio de uma igreja visível. À sua experiência interior, perceberam a necessidade de acrescentar a obediência exterior. Não desejavam dispensar a ênfase no Espírito Santo. Em vez disso, queriam combinar isso com um foco na palavra exterior. No contexto da discussão de Mack sobre a palavra interior e exterior, encontramos uma das melhores declarações iniciais de resumo sobre as Escrituras: “Esta lei que é escrita interiormente pelo Espírito de Deus é completamente idêntica àquela que é escrita exteriormente no Novo Testamento”. Embora não rejeitasse revelações especiais do Espírito, como teria sido o caso com os principais reformadores, Mack afirmou que tal testemunho interior deve ser testado com o que se encontra nas Escrituras. Em sua melhor forma, a herança de Mack tenta guiar um caminho entre o legalismo restritivo, por um lado, e o inspiracionalismo informe, por outro.
(2) Mudança do "Eu" para o "Nós"
Além da mudança para a palavra externa, uma segunda grande mudança de autoridade pode ser vista no diálogo dos primeiros Irmãos com o Pietismo Radical. Trata-se da mudança do "Eu" de Hochmann para o "Nós" dos Irmãos. Ernest Christopher Hochmann, um notável pregador e professor pietista radical, havia sido amigo e guia espiritual de Mack e dos primeiros Irmãos. Ao escreverem sobre os primeiros batismos, os primeiros Irmãos adotaram os pronomes plurais mais bíblicos. De fato, toda a sua abordagem representava a maneira anabatista de interpretação bíblica, a da comunidade reunida em torno das Escrituras. Assim, qualquer nova revelação ou luz precisa ser testada não apenas pela palavra externa, mas também com irmãos e irmãs.
(3) A Mente de Cristo. A
admoestação de Mack de “olhar somente para Jesus, seu Redentor e Salvador” é paralela à abordagem cristológica de Spener e Francke, bem como ao foco no ensinamento e no exemplo de Jesus, tão central para os anabatistas. Para os Irmãos, a palavra interior passou a ser traduzida pela “mente de Cristo” (1 Coríntios 2:16; Filipenses 2:5). Os Irmãos enfatizaram que o Antigo Testamento deve ser interpretado à luz do Novo e o Novo à luz da mente de Cristo. Antes de ser assim denominada, a Hermenêutica dos Irmãos já era cristocêntrica (estilo de interpretação bíblica).
(4) Nenhum Credo além do Novo Testamento.
Visto que os Irmãos têm sido ainda mais relutantes em adotar declarações de fé do que os Menonitas, sua postura não credalista representa, sem dúvida, uma herança do Pietismo. Reagindo ao espírito beligerante de sua época, eles defenderam a paciência e a compreensão ao lidar com diferentes interpretações. Mack Jr. indica que, se encontrasse anciãos que não compartilhassem de seu entendimento sobre a ordem do lava-pés, ele “participaria simplesmente com amor e paz e, ainda assim, explicaria a eles de acordo com as escrituras. Eu esperaria com amor e paciência com eles até que eles também alcançassem essa compreensão...”. Tal abertura a novas luzes na busca da mente de Cristo, contudo, não representa uma abertura sem qualquer fundamento na autoridade. Em vez disso, é uma abertura no contexto da busca por novas luzes à medida que elas irrompem da palavra. Historicamente, para os Irmãos, não tem sido “não temos credo”, mas sim “não temos credo além do Novo Testamento”.
(5) O Novo Prefigurado no Antigo
Os Irmãos seguiam tanto o Anabatismo quanto o Pietismo ao crerem que o Novo Testamento representa o cumprimento do Antigo no contexto da continuidade. Mack citou profusamente o Antigo Testamento. Ele afirmou, por exemplo, que o batismo é prefigurado em muitas histórias do Antigo Testamento, como o evento do êxodo. Há uma unidade entre a circuncisão e o batismo. Não há penalidade em nenhum dos casos se uma criança morrer antes do oitavo dia. Mas no Novo Testamento, o oitavo dia é interpretado figurativamente como o dia da maturidade. Tal interpretação envolve interpretar o Antigo à luz do Novo sem negar a autoridade do Antigo e a unidade das Escrituras. Os Irmãos se consideram uma igreja do Novo Testamento, mas, assim como a igreja primitiva, isso não significa uma rejeição do Antigo Testamento.
(6) Regra de Fé e Prática
Os Irmãos adotaram uma frase frequentemente repetida pelos Anabatistas que ilumina sua posição bíblica. Mack Jr., ao comentar sobre as mudanças nas práticas referentes ao lava-pés, concluiu: “De fato, não pretendemos nos apoiar na prática antiga, mas somente a palavra do Senhor deve ser nossa regra e guia”. Nas poucas vezes em que se encontra a palavra infalível no pensamento anabatista primitivo, ela está associada à fé e à vida. Para o anabatismo e os primeiros Irmãos, a Bíblia é a regra ou autoridade infalível para a fé e a vida. A prioridade está em dar obediência voluntária e alegre aos mandamentos claros e simples de Cristo Jesus. Dessa forma, Mack esperava que todo o Novo Testamento fosse escrito no coração do leitor pelo dedo de Deus, até que toda a vida do leitor se tornasse uma carta viva de Deus, na qual se pudesse ler todos os mandamentos de Jesus Cristo. Não basta considerar o Novo Testamento como um livro que contém verdades, embora elas não nos digam respeito de forma significativa ou não nos comprometam a cumprir os mandamentos de Cristo.
(7) Tradição
Embora os Irmãos muitas vezes se identifiquem com as visões protestantes da Bíblia, como outros, eles acharam impossível escapar da ênfase na tradição. É o caso de Mack Jr., ao escrever posteriormente sobre os primeiros batismos:
Eles descobriram em relatos históricos confiáveis que os primeiros cristãos, durante os séculos I e II, foram iniciados na morte por crucificação de Jesus Cristo, conforme o mandamento de Cristo, por meio da tríplice imersão nas águas do santo batismo. Portanto, examinaram diligentemente o Novo Testamento e constataram que tudo concordava perfeitamente com isso.
Nessa referência à pesquisa histórica de Gottfried Arnold, Mack revelou o que se tornaria fundamental para a atitude dos Irmãos em relação à tradição: as tradições da igreja devem ser julgadas pelo exemplo dos primeiros cristãos.
Irmãos posteriores, ao lidarem com questões como o tipo de alimento a ser usado na Festa do Amor e o tipo de centro de culto a ser utilizado nas capelas, descobriram que era impossível eliminar alguma consideração pela tradição. Em sua maioria, porém, eles compartilharam o sentimento expresso na ata da reunião anual de 1857:
Não seria melhor, ao decidir sobre todos os assuntos apresentados em nossa reunião anual, consultar primeiro a Palavra de Deus, em vez de consultar primeiro as atas antigas? Resposta: Acreditamos que sempre é mais seguro consultar primeiro a Palavra de Deus.
III. Opiniões dos Irmãos sobre a Bíblia nos Tempos Recentes
Os Irmãos no Início do Nosso Século:
O forte consenso dos primeiros Irmãos manteve-se firme, em grande parte, durante as divisões da década de 1880. Um excelente resumo é apresentado por Henry Kurtz em A Enciclopédia dos Irmãos (1867), na página iv: “Os princípios fundamentais dos Irmãos... consistiam em tomar a pura palavra de Deus, e somente ela, como a regra infalível da fé e da prática”. Foi somente após o forte impacto das revoluções científica e industrial vindas da Europa sobre o solo americano que os Irmãos começaram a participar do debate sobre a Bíblia, que se iniciava no protestantismo americano. Esse foco na natureza da Bíblia acompanhou o início das Conferências Bíblicas, das Escolas Bíblicas e do movimento fundamentalista que emergiu durante os últimos anos do século XIX e os primeiros anos do século seguinte. Ao examinar vários artigos e declarações no periódico Gospel Messenger daqueles anos, é possível encontrar Irmãos com inclinações para ambos os lados desse debate. Os extremos, contudo, não são encontrados. Isso provavelmente explica a manutenção de um maior senso de unidade sobre essa questão do que tem sido observado em algumas denominações.
Já em 1895, é possível perceber uma abertura aos métodos da crítica histórica. Artigos publicados nas duas primeiras décadas do século XX negam abertamente a natureza plenária e verbal da inspiração e, de maneira típica dos Irmãos, deslocam o foco dos fatos bíblicos para as afirmações que ela faz, dando-lhes destaque aos frutos produzidos.
Por outro lado, há vozes que compartilham fortemente a preocupação de que a autoridade da Bíblia possa ser enfraquecida pelo racionalismo alemão e pela alta crítica. H.C. Early, em seu discurso bicentenário, afirmou que “quando Deus fala, é definitivo e não há apelação; que Ele fala com pleno entendimento e autoridade; e que o único terreno seguro é aceitar a palavra de Deus com toda a boa fé e obedecê-la”. Foi na década de 1920 que algumas das declarações mais fortes em defesa da inerrância bíblica apareceram no periódico Gospel Messenger .
De lá para cá,
diversas fontes nos ajudam a traçar o desenvolvimento do pensamento dos Irmãos nas últimas décadas. David Wieand descreve seu pai, um dos fundadores da Escola Bíblica de Betânia, como alguém que acreditava nos fundamentos, mas não era fundamentalista. Ele interpretava as Escrituras de forma conservadora, mas não literal. Uma afirmação comum nos primeiros tempos em Betânia era enfatizar a absoluta confiabilidade da Bíblia. Edward Frantz escreveu editoriais durante as décadas de 1930 e 1940 que, em certos aspectos, se assemelhavam à posição de Wieand. Ele acreditava que “a fé cristã não se baseia em qualquer suposta inerrância de seus documentos, mas sim na certeza bem estabelecida de seus fatos essenciais” (1943). Sob a orientação de Frantz, o periódico Gospel Messenger parecia estar aberto tanto a declarações moderadas quanto a declarações muito conservadoras.
Na década de 1950, houve algum debate sobre a proposta da Versão Padrão Revisada (Revised Standard Version). Em sua maior parte, a publicação oficial parecia estar preparando a igreja para sua aceitação e, principalmente, para seu uso. Nas décadas de 1950 e 1960, é possível encontrar algumas declarações bastante críticas sobre a Bíblia em alguns materiais didáticos. No entanto, em geral, a orientação permanece moderada. Não se encontra nenhum liberalismo ou conservadorismo extremo. A principal ênfase de muitos artigos é encorajar os leitores a estudar a Bíblia e incorporar seus ensinamentos. É possível encontrar um artigo de Billy Graham (1954), bem como muitos artigos que se concentram nos ensinamentos éticos, na revelação progressiva e na crença de que a Bíblia não aponta para si mesma, mas para Jesus Cristo.
Juntamente com a aceitação da autoridade da Bíblia em questões de fé e prática, o pensamento dos Irmãos ao longo dos últimos cem anos tem consistentemente mantido a ênfase resumida em um do Gospel Messenger de 1919: “A pregação direta da verdade bíblica, reforçada por uma vida cristã exemplar, é a melhor defesa da Bíblia que já foi concebida… A prática fará mais do que a comprovação para protegê-la do descrédito.”
Pesquisando as Opiniões dos Irmãos Hoje:
Uma das tarefas atribuídas a este comitê pela Conferência Anual de 1977 foi "apresentar posições representativas defendidas pelos Irmãos hoje sobre a natureza da Bíblia como nossa autoridade em matéria de fé e prática". O comitê utilizou três métodos para obter informações sobre as opiniões dos Irmãos. Primeiro, um formulário de pesquisa foi enviado a setenta e cinco Irmãos de diferentes idades, regiões geográficas e pontos de vista teológicos, solicitando-lhes que descrevessem sua própria posição sobre a autoridade e a inspiração da Bíblia. Também foi solicitado que listassem as posições de Irmãos que conheciam. Cinquenta e uma respostas foram recebidas.
Em segundo lugar, os Irmãos presentes na Conferência Anual de 1978 em Indianápolis foram convidados a preencher um questionário elaborado para fornecer ao comitê informações adicionais sobre as crenças atuais dos Irmãos a respeito da Bíblia. Oitocentos e quarenta e cinco responderam ao convite, sendo seiscentos e um leigos e duzentos e quarenta e quatro pastores (quinhentos e vinte e dois delegados e trezentos e vinte e três não delegados)
Por fim, uma sessão de esclarecimento realizada na noite de terça-feira na conferência de Indianápolis proporcionou uma oportunidade para obter dos grupos de trabalho presentes na audiência afirmações e declarações de consenso sobre autoridade e inspiração.
Nenhum desses métodos pretendia obter uma amostragem científica; nenhum tinha a intenção de realizar uma pesquisa para determinar a porcentagem de Irmãos que adotam posições diferentes. Não houve qualquer esforço para sermos abrangentes. Em vez disso, nossa tarefa, como a víamos, era reunir informações sobre a gama de pensamento dos Irmãos e destacar quaisquer áreas de concordância que surgissem.
Nossos exemplos sugerem que os Irmãos geralmente afirmam a inspiração da Bíblia e a primazia de sua autoridade para a fé e a prática. Os Irmãos divergem quanto à natureza da inspiração, à igualdade de autoridade dentro da Bíblia e à exclusividade da autoridade bíblica em relação à autoridade da igreja, de outros escritos inspirados e da direção contemporânea do Espírito.
Algumas Posições Representativas
A pesquisa oferece um rico panorama da ampla gama de visões dos Irmãos a respeito das escrituras. Uma tentativa de resumi-las não implica que todas as posições dos Irmãos estejam incluídas nas cinco descritas, ou que todos os Irmãos se identifiquem com uma delas. A maioria dos Irmãos provavelmente desejaria escolher entre várias. Cada pessoa definiria as diferentes posições de uma maneira um pouco diferente. Esses agrupamentos sugerem posições representativas que surgiram com mais frequência nas respostas da pesquisa.
Primeiramente, existem os Irmãos que creem que a Bíblia é a palavra de Deus divinamente inspirada, completamente isenta de erros na versão King James. Deus controlou a escrita para que cada palavra e frase seja interpretada literalmente e seguida à risca. A autoridade da Bíblia é absoluta e não está sujeita a contestação por nenhuma fonte.
A posição de um segundo grupo é semelhante à anterior, mas com uma perspectiva mais anabatista e tradicional dos Irmãos. A Bíblia é isenta de erros nos autógrafos originais e quaisquer conflitos no texto são apenas aparentes, resultantes da nossa própria falta de compreensão. A versão King James não é a única tradução em inglês considerada confiável. As passagens bíblicas são estudadas à luz do seu contexto, das leis gramaticais e da forma de escrita bíblica que representam. A Bíblia, em sua totalidade, é singularmente inspirada e possui a mais alta autoridade para a vida.
Um terceiro grupo de irmãos aponta para Cristo como a única Palavra perfeita de Deus. O Antigo Testamento é julgado pelo Novo Testamento, e toda a Bíblia, pelo testemunho de Jesus Cristo, nossa suprema autoridade. Os ensinamentos de Jesus são o guia fundamental para a fé e a prática, o cânone dentro do cânone. A Bíblia foi criada pela interação entre Deus e os homens e é uma mistura da fragilidade humana e da perfeita sabedoria de Deus. Ela aponta para além de si mesma, para Deus.
Outro grupo de irmãos enfatiza as raízes da Bíblia na comunidade de fé — escrita pela comunidade de fé, para a comunidade de fé. É a história da salvação, o registro da ação de Deus. O foco da inspiração são as pessoas. “A Bíblia é a pedra de toque para medir nossa experiência em relação ao registro da interação de Deus com seu povo. A autoridade está nas palavras e no espírito, verificada pela comunidade cristã de hoje, um canal contínuo para a revelação de Deus.” Temas e princípios são enfatizados na apresentação de sua mensagem para os nossos dias.
Por fim, há irmãos que sustentam que a Bíblia tem grande valor quando entendida como um "conceito humano de Deus", passível de erro. Ela é inspirada, mas outros escritos também o são. A autoridade que possui depende de sua relevância para a vida atual e varia de um livro para outro em função das diferentes perspectivas de cada autor.
Além das afirmações conscientes que os membros da Igreja fazem sobre a Bíblia e seu papel como autoridade, muitos entrevistados sugerem que a prática muitas vezes não segue a convicção declarada. Em vez disso, os membros da Igreja baseiam sua autoridade em um conjunto de ideais que podem ter raízes bíblicas e serem confirmados pela tradição e pela comunidade da igreja hoje, ou aceitam a autoridade da sociedade secular, vivendo de acordo com os valores compartilhados pela maioria.
Diversidade de Convicções e Preocupações
A diversidade entre os Irmãos é ainda mais documentada pelo questionário e pela audiência da conferência. Há evidências de que muitos Irmãos insistem que a Bíblia é “isenta de erros em todas as suas declarações”. Muitos outros estão igualmente convencidos da falsidade dessa afirmação. Os respondentes concordam que a palavra de Deus é revelada na Bíblia, embora discordem sobre se a Bíblia é, contém ou testemunha a palavra de Deus.
Os irmãos afirmam o valor da continuidade da diversidade em nossa comunhão, enfatizando a unidade e o amor em vez do julgamento e da rejeição. Os irmãos, conforme pesquisa realizada, não estão dispostos a condenar a pregação atual dos irmãos, o conhecimento bíblico ou o compromisso bíblico. A maioria sugere que nossas diferenças se concentram na interpretação, e não na autoridade atribuída à Bíblia.
Existe um forte sentimento contrário à formulação de uma declaração oficial dos Irmãos sobre doutrinas bíblicas básicas ou à exigência de que os ministros sejam avaliados por sua disposição em assinar tal declaração.
De modo geral, os irmãos não estão dispostos a delegar a autoridade para a interpretação bíblica à comunidade de fiéis, preferindo-a a indivíduos isolados. Contudo, eles não adotam uma abordagem puramente individualista em relação a textos problemáticos. A maioria afirma consultar comentários ou discutir essas passagens com uma classe da Escola Dominical ou outro pequeno grupo. Apenas um quarto relata confiar inteiramente nas revelações do Espírito Santo em oração.
Embora haja preocupação com o uso de um método crítico que busca excluir o sobrenatural das Escrituras, uma grande maioria dos Irmãos entrevistados acredita que o método histórico ou crítico de estudo bíblico possibilita uma melhor compreensão.
Os Irmãos ainda dão grande ênfase aos ensinamentos de Jesus. A maioria concorda que “nenhum credo além do Novo Testamento” diz o que precisa ser dito sobre a autoridade bíblica para os Irmãos, embora muitos sugiram que a frase precise ser definida com mais precisão para ser útil.
Quase nenhum dos entrevistados em nosso questionário quis afirmar que a autoridade da Bíblia é a mesma de outros livros enraizados em séculos de experiência. Em vez disso, eles vinculam essa autoridade ao testemunho bíblico sobre Jesus e ao seu papel como declaração fundamental de fé para a igreja.
Quase todos os que expressaram suas opiniões na conferência concordam que a Bíblia é fruto da obra do Espírito Santo na vida das pessoas, rejeitando a ideia de que ela se concentra na criatividade e imaginação de seus autores humanos. Há grande preocupação entre os irmãos em chamar a atenção para a iniciativa de Deus, ressaltando a importância da Bíblia como revelação da obra de Deus no mundo, por meio de homens e mulheres. Além disso, a necessidade de uma abertura contínua a Deus para compreender o testemunho bíblico e viver de acordo com sua mensagem foi frequentemente mencionada.
O questionário indica que os Irmãos veem a Bíblia como “nossa história”, um presente que fornece uma ferramenta para compreender e viver a fé, uma janela através da qual a vida deve ser vista.
Por fim, os irmãos expressam apoio esmagador para que o aumento do conhecimento bíblico seja uma das cinco principais prioridades da igreja nos próximos cinco anos, afirmando a importância de conhecer o conteúdo da Bíblia como base para uma vida guiada por seus ensinamentos.
IV. Afirmações para os Irmãos de Hoje
Os dados resumidos até aqui deixam claro que nós, como Irmãos, somos uma igreja profundamente enraizada nas Escrituras. Não basta, porém, apenas recontar a história de nossa herança bíblica. Devemos prosseguir e levantar a seguinte questão: O que podemos dizer juntos sobre a Bíblia como diretrizes para nossa abordagem das Escrituras hoje? As declarações que se seguem nos convidam a afirmar uns com os outros certas convicções compartilhadas sobre a Bíblia — e a reconhecer as áreas em que ainda não estamos totalmente de acordo. Ligadas dessa forma, essas duas declarações nos lembram tanto da rica unidade que já podemos celebrar quanto da unidade pela qual ainda precisamos nos esforçar.
| (1) Afirmamos a inspiração da Bíblia, reconhecendo de mente e coração que a Bíblia é um livro do Espírito. Tanto os escritores bíblicos quanto aqueles cujo testemunho contribuiu para a sua mensagem foram capacitados e guiados pelo Espírito Santo. Por causa dessa presença de Deus que capacitou e equipou os escritores bíblicos, ouvimos a própria palavra de Deus falando conosco por meio das Escrituras. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso sobre se a inspiração é um processo concluído ou contínuo. Alguns de nós creem que o Espírito de Deus inspira um novo testemunho profético na comunidade de crentes em todas as épocas, em continuidade com o testemunho bíblico. Outros creem que a obra do Espírito em guiar os escritores bíblicos foi única e agora está completa, e que o papel atual do Espírito é inteiramente o de iluminar o que a Bíblia diz. | ||
| (2) Afirmamos que a Bíblia é, antes de tudo, um relato da busca de Deus para nos encontrar, e não meramente nossa busca humana para encontrar Deus. Do começo ao fim, as Escrituras atestam a própria ação decisiva de Deus para se revelar por meio de palavras e obras. E as próprias Escrituras são parte central dessa autorrevelação divina. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso completo sobre a relação entre o divino e o humano na origem da Bíblia. Alguns de nós distinguiriam claramente entre revelação e os processos humanos normais de descoberta e reflexão. Outros enxergariam uma estreita relação entre os dois. | ||
| (3) Afirmamos que a Bíblia, corretamente interpretada, 'é um guia totalmente confiável para nossas vidas. Nesse sentido, reafirmamos nossa compreensão histórica das Escrituras como uma regra infalível de fé e prática. Com essas e outras expressões, honramos e reconhecemos a autoridade única da Bíblia para a igreja. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso sobre se “confiável” significa “inerrante”. Alguns de nós acreditam que o testemunho da Bíblia sobre sua própria autoridade implica que as declarações das Escrituras são isentas de qualquer tipo de erro, seja factual, histórico ou doutrinário. Outros acreditam que tal afirmação é contrária à intenção dos escritores bíblicos e nega a verdadeira humanidade das Escrituras. | ||
| (4) Afirmamos a necessidade de interpretar as Escrituras à luz das Escrituras. Quando não conseguimos discernir como um texto específico se relaciona com o restante da Bíblia, é provável que distorçamos seu significado ou atribuamos sua importância de uma maneira não bíblica. Concordamos que precisamos avaliar as Escrituras em relação às Escrituras, em vez de recorrer a textos favoritos enquanto ignoramos outros. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso sobre o significado disso para uma série de questões específicas que a igreja enfrenta. Por exemplo: como conciliar a proclamação de que o reino de Deus já começou a despontar com as previsões apocalípticas do aumento do mal no mundo? Como conciliar a variedade de textos do Novo Testamento que tratam das relações entre homens e mulheres? Etc. | ||
| (5) Afirmamos que toda a Escritura deve ser interpretada à luz da autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Embora Deus nos fale por meio de todas as partes da Bíblia, devemos ler o Antigo Testamento à luz do Novo, e o Novo em termos de seu testemunho do dom da vida de Deus em Jesus Cristo. É Jesus Cristo quem verdadeiramente é o Verbo de Deus feito carne e por meio de quem percebemos a Escritura como um relato unificado da redenção. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso sobre a extensão da diversidade que encontramos na Bíblia. Alguns acreditam que todas as afirmações bíblicas são historicamente condicionadas e que novas interpretações às vezes corrigem ou substituem as mais antigas. Outros acreditam que não há diferenças fundamentais de perspectiva entre o Antigo e o Novo Testamento, ou entre diferentes autores bíblicos. | ||
| (6) Afirmamos a necessidade de uma abordagem cuidadosa e disciplinada ao estudo da Bíblia. Isso exige o uso dos melhores textos e traduções disponíveis. Exige também sensibilidade ao contexto literário e histórico das passagens que desejamos estudar. Subjacente a todo esse estudo deve estar uma abertura ao mesmo Espírito que inspirou a mensagem bíblica. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso sobre o valor relativo do método histórico-crítico como ferramenta para auxiliar no estudo bíblico. Alguns o consideram extremamente útil para reconstruir a origem e o significado dos textos bíblicos, permitindo-nos, assim, uma compreensão mais completa da mensagem bíblica. Outros, porém, questionam suas premissas, consideram seu valor duvidoso e apontam para uma tendência a excluir o sobrenatural das Escrituras. | ||
| (7) Afirmamos a importância central da comunidade reunida de crentes na interpretação da Bíblia. Juntamente com nossos antepassados, estamos convencidos de que todas as percepções individuais das Escrituras precisam ser testadas na e pela comunidade. Quando estiver funcionando adequadamente, a igreja será um lugar onde os dons e as percepções de todos contribuirão para uma compreensão mais completa da palavra de Deus. | ||
| Ainda não chegamos a um consenso sobre o quão vinculativo deve ser o conselho bíblico da comunidade. Alguns de nós acreditam que a voz da igreja deve ser vinculativa, tanto na congregação local quanto na Conferência Anual. Outros acreditam que o consenso da igreja deve ser consultivo, e não vinculativo, e que qualquer coisa além disso violaria nossa herança de “nenhum credo além do Novo Testamento” | ||
| (8) Afirmamos que uma resposta fiel à mensagem bíblica envolve tanto crer quanto praticar. São os praticantes da palavra que serão justificados aos olhos de Deus, e não aqueles que apenas professam suas afirmações da boca para fora. Ao mesmo tempo, a obediência em nossas vidas não acontece separadamente de uma aceitação alegre e confiante da mensagem bíblica e de sua autoridade para nossas vidas. | ||
V. Amar e Companheirismo Mútuos
Como podemos nos amar e ter comunhão uns com os outros quando existe uma diversidade de atitudes entre nós sobre a forma como as escrituras foram dadas e sua interpretação?
O caminho encontra-se na natureza da criação de Deus, através do exemplo e dos ensinamentos de Jesus, através dos exemplos dos nossos primeiros irmãos, através do reconhecimento das nossas limitações humanas de compreensão e através da abertura à direção do Espírito que une todos os membros da igreja de Cristo.
Apesar de uma unidade essencial, a diversidade é o padrão de Deus na criação. O deleite de Deus na variedade se expressa de inúmeras maneiras (Salmo 104). Àqueles que andam no Espírito, são dados diversos dons (1 Coríntios 12:4). A conformidade é o padrão da humanidade. É próprio do mundo tentar forçar os indivíduos a se encaixarem em um molde uniforme. Jesus denunciou os fariseus por fazerem isso. Os fariseus demonstravam sua autoridade sobre o povo tentando impor os mínimos detalhes de cada lei sem mover um dedo para ajudar (Mateus 23:4). Paulo advertiu os cristãos em Roma: “Não se conformem com os padrões deste mundo…” (Romanos 12:2). Houve momentos em nossa história em que os irmãos caíram no erro de insistir em uma conformidade rígida, e nós, como membros da igreja, ou concordamos ou fomos desassociados.
A individualidade exige liberdade. O respeito pela liberdade se manifesta na crença tradicional dos Irmãos na “não coerção na religião”, e por isso evitamos padrões de imposição que violem a liberdade dos indivíduos e dos grupos locais. De fato, é necessário que haja uma valorização da diversidade e um espírito de humildade e abertura entre nós para aprendermos uns com os outros. Precisamos reconhecer que as percepções e compreensões de todos nós são limitadas e mudam com nossas próprias experiências, “…pois o nosso conhecimento é imperfeito… vemos como num espelho, obscuramente…” (1 Coríntios 13:9, 12). Nenhum de nós conquistou o reino!
Contudo, a liberdade cristã não implica um individualismo desenfreado. Nossa herança anabatista ensina que ninguém entra no reino separado de seus irmãos e irmãs. É dentro da comunidade de crentes e para sua edificação que o Espírito é dado, e aqueles que andam no Espírito são chamados a trabalhar para “…estarem em plena harmonia e de um só espírito… (e são instruídos) …terem entre vocês o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus tinha…” (Filipenses 2:2, 5).
Jesus revelou em sua vida e ensinamentos o caminho para a liberdade e, ao mesmo tempo, para a vida em comunidade — o caminho para a “unidade na diversidade”. No Cenáculo, seus discípulos receberam uma instrução específica: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Assim como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:34-35). O amor mútuo não é opcional para os cristãos; e na cruz vemos até onde vai o amor cristão.
É o amor que experimentamos quando Cristo está no centro de nossas vidas que nos une. Não criamos a unidade ou a comunhão; elas são dádivas. Quando nossas vidas são centradas em Cristo, podemos discordar sem amargura ou divisão. É uma marca da atuação do Espírito Santo que possamos nos manter unidos em amor e comunhão, mesmo havendo diversidade entre nós.
O amor cristão exige:
- que reconhecemos a integridade e o valor daqueles irmãos e irmãs com quem não podemos concordar totalmente.
- que façamos todos os esforços para nos entendermos uns aos outros, mantendo os canais de comunicação abertos, ouvindo, compreendendo e respondendo aos nossos irmãos e irmãs.
- que estejamos dispostos a testar nossas percepções e entendimentos com a igreja reunida.
- que estejamos abertos ao conselho de nossos irmãos e irmãs.
- que nos comportemos de maneiras que edifiquem a igreja.
- que sejamos obedientes a Jesus Cristo.
- que não tentemos disfarçar nossas diferenças, mas que as enfrentemos honestamente e trabalhemos para resolvê-las “com paciência, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4:2-3).
- que temos diante de nós o objetivo de “estar em plena harmonia e ter um só pensamento” (Filipenses 2:2).
Houve momentos em nossa história em que os Irmãos simplesmente concordaram que, naquele ponto de sua vida em comunidade, não conseguiam chegar a um acordo. Sua fé certamente estava em que, mantendo sua unidade no Espírito, o acordo acabaria por ser alcançado. Por exemplo, em 1883, uma consulta foi apresentada na Reunião Anual solicitando que se estabelecesse uma forma única de lava-pés e que as igrejas adotassem uma prática uniforme, servindo a ceia fora ou sobre a mesa no momento do lava-pés. Resposta: “Desejamos muito ver uma prática uniforme na igreja. Mas não vemos como alcançar esse objetivo no momento atual, com as práticas mencionadas na consulta” (Atas Revisadas 1778-1885, p. 174).
Ao se referir aos irmãos que divergiam em sua compreensão das Escrituras, especialmente no que diz respeito ao serviço do lava-pés, Mack Jr. os encoraja a considerar diferentes pontos de vista “com amor e espírito sereno”. Ele escreve: “…queridos irmãos, vigiemos e sejamos cuidadosos, e acima de tudo preservemos o amor, pois assim se preserva a luz. O espírito da verdade testifica em 1 João 2:10: ‘Aquele que ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço.’ O bom Deus, que é o amor puro e imparcial, pode e irá suprir gradualmente onde houver falta de discernimento aqui ou ali.”
VI. Recomendações
Em nossa diversidade, ainda não chegamos a um consenso completo sobre tudo o que significa para os irmãos responder fielmente à mensagem da Bíblia em nossos dias. Concordamos, porém, sobre a necessidade de um diálogo contínuo com e sobre as Escrituras, para que possamos experimentar a renovação bíblica em nosso meio. Para esse fim, fazemos as seguintes recomendações à igreja:
(1) Recomendamos ao Conselho Geral que o aumento da consciência bíblica seja uma prioridade máxima para o programa do Conselho nos próximos cinco anos, com o estudo sério da Bíblia como ingrediente básico na nossa busca das Metas para os anos oitenta.
(2) Recomendamos à Comissão de Ministérios Paroquiais que seja preparado um guia de estudo para permitir que as congregações usem esta declaração como recurso para aulas de escola dominical e outros grupos de estudo. Este guia de estudo poderia incluir a própria declaração, materiais adicionais reunidos pela comissão, sugestões para estudo em grupo e recomendações de recursos adicionais para estudo complementar.
(3) Recomendamos tanto à Comissão de Ministérios Paroquiais como aos distritos que sejam concebidos e realizados eventos de estudo bíblico que permitam a partilha aprofundada de diversas abordagens aos textos bíblicos, tanto a nível distrital como congregacional.
(4) Recomendamos a todos os envolvidos que haja uma representação mais completa de pessoas que tenham diferentes pontos de vista sobre a inspiração e autoridade da Bíblia em todos os níveis da vida da igreja, incluindo o Conselho Geral, a equipe nacional e distrital, o corpo docente do seminário, os escritores de publicações da igreja e os comitês da Conferência Anual.
(5) Recomendamos uns aos outros, como membros da igreja, que nos comprometamos novamente, individualmente, a examinar as Escrituras, com sensibilidade à mensagem do Antigo e do Novo Testamento, abrindo-nos à nova luz que ainda pode surgir da palavra de Deus.
Wanda W. Button, coordenadora;
Dale W. Brown;
Joan Deeter;
Rick Gardner;
Harold S. Martin
Ata da Conferência Anual de 1979: O relatório foi apresentado por Wanda W. Button, com a presença dos membros da comissão. O relatório foi aprovado.
APÊNDICE
Definição de Termos
AUTORIDADE: No contexto bíblico, autoridade denota a capacidade ou o direito das Escrituras de servirem como norma ou critério para questões de fé e prática na igreja.
CRÍTICA: Termo que abrange uma ampla gama de métodos literários e históricos de análise de um texto. O chamado método histórico-crítico aplicado à Bíblia aborda-a com as mesmas ferramentas de pesquisa utilizadas com outros documentos históricos. Essas “ferramentas” incluem a crítica das fontes (às vezes chamada de crítica literária, que na verdade é um campo de investigação muito mais amplo do que apenas distinguir fontes); a crítica da forma ou da tradição , que envolve determinar as formas ou unidades em que os materiais bíblicos circularam antes de serem incorporados a documentos escritos e o contexto na vida das pessoas de onde essas unidades de material se originaram; e a crítica da redação , uma tentativa de definir a maneira como os escritores bíblicos editaram ou redigiram o material que receberam para atender às necessidades da igreja em sua época. Às vezes, a expressão alta crítica é usada para identificar essa disciplina, a fim de distingui-la da disciplina anterior de determinar a forma correta do texto original das Escrituras, chamada baixa crítica .
ILUMINAÇÃO: Compreensão do significado do texto bíblico proporcionada pelo Espírito Santo, um "iluminação" tanto da mente quanto do coração.
INERÂNCIA: A afirmação de que cada declaração do texto original das escrituras está isenta de qualquer tipo de erro — seja factual, histórico, doutrinário ou moral.
INFALIBILIDADE: Por vezes usado como sinônimo de inerrância, mas mais frequentemente com a preocupação com a autoridade da Bíblia em questões de fé e prática. Neste último uso, implica a confiabilidade da Bíblia como norma para decisões doutrinárias e morais.
INSPIRAÇÃO: A atividade do Espírito de Deus que permite que a palavra de Deus seja ouvida e proclamada em palavras humanas. Embora o termo “inspirado” (ou soprado por Deus) ocorra apenas uma vez no Novo Testamento, o conceito está implícito em todo o texto. Nesse contexto mais amplo, podemos falar de uma comunidade inspirada, dentro da qual o Espírito capacita alguns a serem testemunhas inspiradas, cujo testemunho resulta em um cânon inspirado das Escrituras (2 Timóteo 3:14-17). Vários termos são usados para descrever o processo ou o resultado da atividade do Espírito em relação às Escrituras. Inspiração verbal sugere que o Espírito guiou a própria escolha das palavras. Inspiração plenária sugere que toda a Escritura deriva da ação do Espírito. Nenhuma das duas expressões implica a ditadura literal das palavras das Escrituras aos escritores, embora algumas pessoas também tenham defendido essa visão.
INTERPRETAÇÃO: O processo de retornar ao mundo de significado dos escritores bíblicos – e encontrar maneiras de construir pontes entre esse mundo e o nosso, para que também possamos compreender e responder. Embora alguns argumentem que o Espírito Santo interpreta as Escrituras para nós independentemente de qualquer esforço humano disciplinado, a maioria das pessoas afirmaria que algum esforço disciplinado é o canal através do qual o Espírito pode atuar com mais facilidade.
REVELAÇÃO: A atividade de autorrevelação de Deus, pela qual Deus se torna conhecido para nós. Para os escritores bíblicos, Deus se revela de forma geral na ordem criada, mas ainda mais em atos especiais na história que manifestam a palavra e o poder de Deus. A expressão " revelação progressiva" é às vezes usada para descrever o caráter gradual dessa revelação, conforme atestado nas Escrituras, implicando, por vezes (mas não necessariamente), que o novo substitui parcialmente o antigo.
VERDADE/CONFIABILIDADE: Um dos conjuntos de termos mais complexos em nossa discussão sobre a Bíblia. A verdade pode ser definida de várias maneiras: como correspondência com certos dados objetivos, como consistência ou coerência interna, como lidar com o real em oposição ao irreal ou ilusório, ou como fidelidade a um propósito específico. A(s) definição(ões) específica(s) de verdade que tivermos em mente determinará(ão) o que queremos dizer quando falamos da Bíblia como confiável. Conforme definido neste texto, a confiabilidade da Bíblia significa, no mínimo, que ela apresenta fielmente a mensagem que Deus quer que ouçamos e que nos conduz fielmente a relacionamentos corretos com Deus e uns com os outros. Se significa mais do que isso (por exemplo, inerrância factual) permanece um assunto em constante debate.
