Tomada de decisões no fim da vida

Declaração da Igreja dos Irmãos de 1996

Conteúdo:


Introdução

Esta declaração fundamental visa auxiliar os membros da Igreja dos Irmãos a relacionar as decisões relativas ao fim da vida com a fé. Levam-se em consideração os ensinamentos bíblicos, os princípios cristãos, as tradições dos Irmãos e as realidades contemporâneas. A declaração será complementada periodicamente com estudos documentais que detalham questões e preocupações específicas.

Afirmação Bíblica

“Pois não vivemos para nós mesmos, nem morremos para nós mesmos. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Pois foi para isso que Cristo morreu e ressuscitou: para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos” (Romanos 14:7-9).

Cristo é, de fato, Senhor tanto da nossa vida quanto da nossa morte. Como cristãos, cremos que a vida continuará após a morte. Contudo, visto que a morte representa o fim da vida como a conhecemos, muitas vezes ficamos perplexos e temerosos em relação ao morrer e à morte.

A boa nova do Novo Testamento, porém, afirma que em Cristo a morte é vencida e se torna o prelúdio para uma vida nova e eterna.

O Contexto Contemporâneo

Nossa fé cristã se desenvolve a partir dessa afirmação bíblica. Os irmãos são encorajados a recorrer a essa fé, visto que os cuidados de saúde modernos lhes apresentam dilemas no fim da vida para os quais respostas claras são difíceis de encontrar. Alguns exemplos:

Uma mulher de 85 anos sofre um AVC que a deixa em coma e incapaz de engolir. O testamento vital, assinado pela paciente cinco anos antes, solicita que sua vida não seja mantida por nutrição e hidratação artificiais, mas os familiares estão divididos. Devem respeitar esse pedido ou autorizar a colocação de uma sonda de alimentação no estômago?

Um jovem de 18 anos sofreu múltiplos ferimentos por arma de fogo, incluindo traumatismo craniano grave. Exames diagnósticos indicam que seu cérebro está gravemente danificado e que ele se encontra em estado vegetativo persistente. Seus pais devem autorizar o início do tratamento de suporte à vida, cientes de que posteriormente poderão precisar decidir se devem ou não desligar o respirador que o mantém respirando?

Uma criança nasce com múltiplos problemas físicos incompatíveis com a vida. Como os pais podem decidir se devem ou não se submeter a uma série de cirurgias caras e dolorosas quando o médico os informa que, na melhor das hipóteses, a vida da criança será prolongada por um ano?

Um homem de 60 anos tem câncer ósseo. A dor que ele sente é insuportável. Ele diz à família e ao médico: "Só quero morrer e acabar com isso", e pede "algo para pôr fim a todo esse sofrimento". Como os cuidadores compassivos devem responder a um pedido como esse, sabendo que a doença é terminal e a dor insuportável?

Uma mulher de 70 anos está em estágio avançado de Alzheimer. Ela não reconhece mais seus familiares nem consegue se comunicar de forma significativa. Os custos de seus cuidados em uma casa de repouso estão consumindo as economias da família. O desgaste emocional e financeiro está afetando profundamente a família. Diante da escassez de recursos, qual o nível de cuidados contínuos que pode ser oferecido? Onde a família pode encontrar o apoio necessário?

Tradição dos Irmãos

Os Irmãos, movidos pelo compromisso com o Senhor Jesus Cristo, pelo estudo das Escrituras e pela vida em comunidade, desenvolveram tradições que continuam a guiá-los no processo de morrer e na morte. Os Irmãos abraçam, com seriedade e alegria, a compreensão de que a morte é a porta para a vida eterna com Deus. Os Irmãos são chamados a viver em prontidão, pois o momento exato e as circunstâncias da morte não nos cabem determinar. Uma vida consistente de fidelidade e obediência a Deus, e não a conversão no leito de morte, é o caminho para se preparar para a morte.

O compromisso dos Irmãos com uma vida simples deve ser expresso também na hora da morte. Nas gerações passadas, o falecido era lembrado em um culto simples, com cânticos de hinos e pregação da Palavra. Muitas congregações mantinham cemitérios para uso de seus membros, e não era incomum que os membros da igreja construíssem o caixão de madeira simples que carregavam até a sepultura que haviam preparado.

Na tradição dos Irmãos, a família da fé frequentemente se reúne em torno daqueles que estão morrendo e sofrendo, oferecendo ministérios de cuidado e apoio. A comunidade da igreja, no passado e no presente, oferece tanto apoio espiritual por meio da unção, momentos especiais de oração e presença compassiva, quanto assistência prática, como o preparo de alimentos e, em áreas rurais, ajuda com tarefas sazonais.

Complexidades na tomada de decisões

Muitos fatores, além da nossa fé, nos influenciam quando a morte se aproxima, seja para nós mesmos ou para nossos entes queridos. Nossos próprios medos, culpa, luto, atitudes culturais em relação à morte, costumes funerários, diferentes maneiras como os familiares entendem as questões do fim da vida – tudo isso complica nossa tomada de decisão.

O conhecimento médico e a tecnologia moderna, que têm a capacidade de alterar o processo de morte, juntamente com os custos crescentes dos cuidados de saúde, tornam as decisões relativas ao fim da vida ainda mais difíceis.

É impossível desenvolver respostas definitivas para todas as questões que envolvem o morrer e a morte. No entanto, a partir da perspectiva da nossa fé como cristãos e da nossa tradição como irmãos, existem diretrizes que podem nos auxiliar.

Princípios orientadores cristãos

  • A vida é uma dádiva de Deus, para ser vivida com gratidão
  • A morte física, o fim natural e inevitável da vida física, é um mistério.
  • A integridade dos processos da vida criados por Deus deve ser respeitada; o nascimento e a morte fazem parte desses processos.
  • A fé bíblica nos orienta a reivindicar o amor e o poder de Deus em nossa vida, em nossa morte e em nossa expectativa da vida após a morte.
  • O crescimento espiritual pode advir do enfrentamento honesto do sofrimento e da morte.
  • O apoio da igreja fortalece a esperança cristã daqueles que enfrentam a morte ou o luto.

Valores religiosos para auxiliar na tomada de decisões em relação ao fim da vida

Alguns valores cristãos, importantes para a Igreja dos Irmãos, que sustentam uma vida inteira de obediência a Deus, também se tornam guias fiéis para a tomada de decisões no fim da vida.

Comunidade. Como podemos amparar e confortar as pessoas que estão morrendo ou em luto, para que a morte não rompa os laços da comunidade cristã?

O serviço da unção, um poderoso símbolo de cura e esperança, oferece a compaixão e o cuidado da comunidade de fé. Através de visitas e orações regulares, a igreja acolhe aqueles que estão morrendo ou em luto, seguindo o conselho de “carregar os fardos uns dos outros”. Após o falecimento, por meio do funeral, dos cultos memoriais, da refeição preparada pela congregação e da partilha de histórias, lembramos aqueles que foram importantes em nossa comunidade de fé.

Integridade. Como podemos falar a verdade com amor e agir com compaixão em situações de fim de vida?

À medida que a morte se aproxima, a comunicação aberta, honesta e completa torna-se fundamental. A pessoa em fase terminal, seus familiares e cuidadores precisam se comunicar com honestidade e compaixão. Informações claras sobre o diagnóstico e o prognóstico ajudarão a pessoa a tomar decisões responsáveis ​​e conscientes. Familiares e cuidadores precisam ouvir, respeitar e honrar a integridade dessas decisões. Também precisam se comunicar honestamente entre si, reconhecendo que cada pessoa aborda as questões do fim da vida com diferentes níveis de compreensão e aceitação.

Humildade. Como aceitamos as limitações humanas e afirmamos a bondade de Deus?

A tecnologia e a expertise médica, embora úteis, podem não abordar adequadamente as dimensões espirituais, sociais, emocionais e relacionais da vida e da morte. A prática médica concentra-se principalmente nos fatores físicos e biológicos da doença, que representam apenas uma pequena parte da enfermidade em sua totalidade. A tecnologia médica é ainda limitada por sua incapacidade de, em última instância, prevenir a morte. Apesar dos melhores cuidados médicos, todas as pessoas morrem. Permitir que a morte ocorra é um reconhecimento fiel e humilde do poder e da bondade de Deus, que oferece cura além da morte.

Reverência pela Vida. Como viver a vida plenamente quando a morte se aproxima?

Toda vida é importante e preciosa aos olhos de Deus, conforme afirmado em inúmeras declarações da Conferência Anual. Tirar a vida de forma ativa e intencional, incluindo o suicídio assistido, é inaceitável. Também é inaceitável, porém, permitir que a dor e o sofrimento humanos permaneçam sem alívio, ou prolongar o processo de morte com intervenções médicas extraordinárias. Quando a morte se aproxima, o alívio da dor e do sofrimento é mais importante do que simplesmente prolongar a vida. Todos os recursos disponíveis para alívio, como oração, meditação, técnicas de controle da dor, clínicas de dor, cuidados paliativos e medicamentos, devem ser considerados. O cuidado espiritual, emocional, relacional e físico oferecido com amor e compaixão pela família, amigos, congregações e profissionais de saúde auxilia as pessoas a morrerem com dignidade e respeito.

Respeito mútuo. Como respeitamos os desejos, valores e decisões de pessoas que estão morrendo ou enlutadas?

Não existe uma única maneira correta de morrer ou de vivenciar o luto. Aqueles que buscam ser atenciosos não imporão seus próprios pontos de vista aos que estão sofrendo, morrendo ou em luto, mas lembrarão que o ministério da presença é fundamental e que ouvir é mais útil do que dar conselhos. Os desejos e valores daqueles que estão morrendo e em luto, incluindo suas decisões sobre cuidados médicos ou outras abordagens de saúde, devem ser valorizados e respeitados.

Mordomia e Simplicidade. Como podemos usar e cuidar com mais fidelidade dos dons de Deus à medida que a morte se aproxima?

A morte e o morrer levantam questões sobre a administração dos nossos recursos e dos nossos corpos. A elaboração de um testamento orienta os sobreviventes a distribuir os bens e ativos de acordo com os desejos do falecido. Isso perpetua os valores e a responsabilidade do indivíduo mesmo após a morte. Diretivas antecipadas de saúde, um testamento vital e uma procuração duradoura, por exemplo, instruem os profissionais de saúde sobre as opções de tratamento preferenciais, especialmente quando a pessoa está muito doente para expressar seus desejos. Optar por doar órgãos e/ou tecidos no momento da morte é outro ato de administração responsável, que beneficia outras pessoas com necessidades especiais. A preocupação dos Irmãos com a simplicidade se estende às decisões relativas a serviços funerários, cerimônias memoriais, doações memoriais, sepultamento, cremação e outras práticas relacionadas à lembrança e ao cuidado com as pessoas que faleceram. Decisões discutidas e registradas com antecedência podem simplificar e humanizar significativamente o cuidado com aqueles que estão morrendo.

Justiça. Como podemos melhor servir a Deus e ao próximo em meio às realidades econômicas que cercam a morte?

Como os recursos de saúde são limitados e caros, o uso e a distribuição de cuidados e tecnologia médica tornam-se uma questão de justiça. Por exemplo, alguns têm acesso a procedimentos médicos dispendiosos para adiar a morte, enquanto outros não conseguem obter cuidados de saúde básicos. Ou ainda, alguns podem transferir ativos financeiros para familiares para evitar o pagamento de custos com saúde. Reconhecendo que as questões de justiça fazem parte da tomada de decisões no fim da vida, a igreja é chamada a auxiliar as pessoas a tomarem essas decisões com responsabilidade, afirmando o bem-estar de todos.

Recursos para a tomada de decisões

Tomar decisões relacionadas a questões de fim de vida é complexo e difícil. O bom senso pode ser prejudicado por cansaço, tristeza, medo ou outras emoções. Para a maioria de nós, o conhecimento de termos médicos e da natureza das doenças é limitado e, muitas vezes, precisamos depender de informações fornecidas por terceiros para chegar a decisões.

Os profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, são uma fonte primária de informações sobre o estado físico do paciente. Esses profissionais, juntamente com capelães, pastores e assistentes sociais, são extremamente valiosos para fornecer informações e esclarecer dúvidas, auxiliando na tomada de decisões acertadas.

É no seio da família e da congregação, contudo, que os sentimentos pessoais, os dilemas e as decisões podem ser melhor explorados. Uma congregação acolhedora que oferece ministérios de visitação, presença, aconselhamento, leitura bíblica, adoração e oração é um recurso fundamental. Irmãos e irmãs de confiança podem ser chamados a servir como um grupo de apoio para acompanhar as pessoas em suas decisões relativas ao fim da vida. Um comitê de ética congregacional também pode fornecer orientação para decisões complexas sobre o fim da vida. E para os Irmãos, o serviço de unção, seguindo o conselho de Tiago, é mantido: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor.”

Recomendações para ação

Juntamente com esta declaração de fé, recomenda-se a disponibilização de recursos e oportunidades adicionais para auxiliar pessoas e congregações a tomarem decisões informadas sobre questões relativas ao fim da vida:

  1. Materiais de estudo sobre temas específicos, como perspectivas bíblicas sobre a morte e o morrer; cerimônias fúnebres e sepultamentos; diretivas antecipadas de vontade; cuidados paliativos; dinâmica familiar em meio à perda e ao luto; planejamento sucessório; e mordomia da vida e da morte. A Associação de Cuidadores Irmãos deverá facilitar o desenvolvimento de pelo menos um documento de estudo por ano nos próximos anos.
  2. Orientações e assistência às congregações na formação de comissões de ética congregacional, fornecidas pelo Conselho Geral em consulta com a Associação de Cuidadores Irmãos.
  3. Artigos sobre tomada de decisões veiculados por canais de comunicação nacionais, distritais e congregacionais.
  4. Promoção e assistência na elaboração de diretivas antecipadas de cuidados para pessoas de todas as idades por meio de agências apropriadas, como Brethren Homes, Brethren Benefit Trust, Association of Brethren Caregivers, Mutual Aid Association e Brethren Colleges.
  5. Cursos e workshops no Seminário Teológico Bethany e em outros locais de formação pastoral sobre questões relativas ao fim da vida e à tomada de decisões.
  6. Distribuição da Resolução da Conferência Anual sobre Doação de Órgãos e Tecidos e auxílio às congregações na sua promoção.
  7. Relações de apoio e informações fornecidas por pastores e diáconos.
  8. Arquivos congregacionais contendo documentos importantes para os membros relacionados ao fim da vida, como diretivas antecipadas de cuidados e planos para funerais ou cerimônias memoriais, devem ser mantidos pelo pastor e/ou diáconos.
  9. Inclusão intencional de questões e tomadas de decisão relacionadas ao fim da vida na programação denominacional, distrital e congregacional.

Conclusão

Como pessoas de fé, membros da Igreja dos Irmãos, apoiemo-nos uns aos outros na difícil tarefa de tomar decisões sobre o fim da vida. Encorajemo-nos mutuamente com a certeza de que – mesmo nesta era da tecnologia – é Jesus quem é a Ressurreição e a Vida, Senhor dos vivos e dos mortos.

Aprovado pelo Conselho Geral em sua reunião de 11 de março de 1996, para recomendação à Conferência Anual de 1996.

Katherine E. Hess, Presidente do Conselho;
Donald E. Miller, Secretário-Geral

Ata da Conferência Anual de 1996: John Henry, membro do Comitê Permanente do Distrito Sul da Pensilvânia, apresentou a recomendação do Comitê Permanente para que a Declaração sobre Tomada de Decisões no Fim da Vida fosse adotada. O corpo de delegados adotou a recomendação do Comitê Permanente.