1 de outubro de 2016

Desvendando o silêncio

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Guardo meu segredo há quase 20 anos. Eu tinha 15 anos e gostava da ideia de receber atenção dos garotos. Quando um rapaz mais velho começou a me dar atenção, fiquei animada e lisonjeada. Fiquei impressionada com o quanto ele parecia se importar, ouvindo enquanto eu falava, dizendo o quanto eu era bonita. Confiei nele; acreditei que ele se importava comigo tanto quanto eu com ele. Mas essa confiança era infundada.

Ele vinha dando a entender que queria fazer sexo havia mais ou menos uma semana. Embora eu não fosse virgem, não estava pronta para transar com ele. Naquela noite, ele não deu a entender nem perguntou; fez o que quis, apesar das minhas objeções.

Senti que eu mesma havia provocado aquilo, que merecia o que me aconteceu porque meu pai havia me proibido de namorá-lo. Não denunciei o ocorrido. Nem mesmo contei para minha família ou amigos. Falar sobre isso era mais assustador do que guardar segredo.

Amo a Igreja dos Irmãos. Ela tem sido meu lar espiritual desde criança. Frequento a mesma congregação na zona rural do noroeste de Ohio que frequentava quando era pequena. Os princípios fundamentais da nossa denominação — paz e reconciliação, vida simples, integridade na fala, valores familiares e serviço ao próximo, perto ou longe — são pilares importantes da minha fé. Ao mesmo tempo, me decepciona o quão pouco nossa igreja se pronuncia sobre violência sexual.

As notícias estão repletas de casos de estupro e outras formas de violência sexual, mas quando pesquiso no banco de dados de declarações da Igreja dos Irmãos, não encontro nada. Nossa denominação já se pronunciou sobre a naturalidade da sexualidade e a intenção de Deus de que os seres humanos experimentem amor e companheirismo, sobre o crescente problema da violência armada e sobre o problema da violência doméstica. Contudo, a denominação jamais se manifestou sobre a cultura do estupro. Precisamos fazê-lo, tanto para reconhecer aqueles que sobreviveram quanto para denunciar futuros ataques.

O problema não é trivial. De acordo com o Centro Nacional de Recursos sobre Violência Sexual (National Sexual Violence Resource Center), uma em cada cinco mulheres e um em cada 71 homens serão estuprados em algum momento de suas vidas, e uma em cada quatro meninas e um em cada seis meninos sofrerão abuso sexual antes de completarem 18 anos. Em 80% dos casos de estupro, a vítima conhece o agressor. No entanto, o estupro é o crime menos denunciado, com 68% dos casos nunca sendo relatados à polícia.

A igreja precisa se pronunciar com clareza, pois nossa cultura transmite mensagens contraditórias sobre sexo e sexualidade tanto para crianças quanto para adultos. Quer queiramos ou não, encontros sexuais casuais e promiscuidade sexual são a norma na cultura americana. Programas de televisão voltados para adolescentes frequentemente retratam sexo e gravidez como algo normal na adolescência. Imagens de garotas em poses provocantes dominam a publicidade. Essa cultura nos incentiva a consumir sexo a todo custo.

No entanto, também vemos um crescente clamor público contra a "cultura do estupro". A cultura do estupro, segundo uma definição, é a forma como "a sociedade culpabiliza as vítimas de agressão sexual e normaliza a violência sexual masculina". Parte da cultura do estupro é o silêncio sobre a natureza comum e cotidiana da agressão sexual.

O silêncio da nossa igreja reflete o desconforto com essa discussão. Tradicionalmente, a posição da igreja sobre sexo tem sido a abstinência fora do casamento, mas mesmo que nos apeguemos a esse ideal, não podemos ignorar a realidade do mundo em que vivemos e no qual eu cresci. De acordo com uma pesquisa realizada pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, 75% dos americanos já tiveram relações sexuais antes do casamento aos 20 anos. A maioria dos jovens é mais influenciada por normas culturais do que pelos ensinamentos da igreja.

Precisamos encontrar uma nova maneira de lidar com a violência sexual. Precisamos ensinar aos jovens o respeito pelos seus próprios corpos, bem como o respeito pelos outros — mesmo incentivando a abstinência. Precisamos dar mais voz aos valores da nossa tradição, não por uma questão de tradição, mas sim pela saúde e bem-estar do povo.

A Igreja dos Irmãos tem uma longa história de contracultura, desde o uso de roupas simples até a objeção de consciência. Nossos filhos também precisam aprender a resistir às mensagens da cultura popular sobre sexo e sexualidade. É desconfortável falar sobre sexo, mas fazê-lo deve fazer parte do nosso testemunho de paz. Como afirma o escritor quaker Kody Hersh: “Se não conseguirmos falar sobre sexo, ficaremos à mercê do discurso ininterrupto da cultura do estupro, porque não oferecemos nenhum desafio nem alternativas”. Em vez disso, argumenta Hersh, “devemos pregar uma sexualidade não violenta, na qual todo ser humano tenha o direito de escolher livremente como, quando e se usará seu corpo para prazer e conexão”

O que mais aprecio nos Irmãos é que tomamos o exemplo e os ensinamentos de Jesus como modelo para nossas vidas. Jesus não se esquivou das questões difíceis de sua época. Ele não se limitou a manter o status quo, porque lidar com problemas era desconfortável. Jesus causou impacto. Ele tirou as pessoas de suas zonas de conforto e as fez perceber que o mundo precisava ser transformado para que a vontade de Deus prevalecesse. O exemplo que Jesus deu no primeiro século ainda se aplica a nós hoje.

A Igreja dos Irmãos não pode mais permanecer em silêncio enquanto mensagens que distorcem a beleza de nossos corpos e as intenções de Deus para o sexo nos bombardeiam. Os Irmãos não podem continuar ignorando os milhares de mulheres, homens e crianças devastados pelo abuso sexual e estupro. O problema não desaparecerá se não o reconhecermos. A igreja deve oferecer orientação para navegar no mundo do sexo e da sexualidade.

Isso poderia ter feito diferença para mim há 20 anos; faria diferença para todos nós agora.

Staci Williams é membro da Igreja dos Irmãos de Poplar Ridge, em Defiance, Ohio, e estudante do Seminário Teológico Bethany.