Estudo Bíblico | 7 de novembro de 2016

Como você sabe meu nome?

Foto de Barry Chignell

Zaqueu estava literalmente em cima de uma árvore quando Jesus passou por ali. A história é contada em Lucas 19. Ele subiu na árvore por vontade própria. Era um lugar seguro. Ele queria ser um observador, um crítico, e não um participante da cena que se desenrolava em Jericó. Reconheço a postura dele. Certamente, ele não estava preparado quando Jesus parou perto da árvore e o chamou pelo nome: “Zaqueu, desça dessa árvore. Vou almoçar com você hoje.”

Jesus o chamou pelo nome. Isso é surpreendente. Há poucos trechos nos Evangelhos em que Jesus chama alguém pelo nome. O uso do nome torna o chamado de Jesus pessoal e direto. Torna mais difícil ignorá-lo.

Dizem que Zaqueu desceu correndo da árvore imediatamente e acolheu Jesus em sua casa. Admiramos isso. Talvez até invejemos. Seria realmente tão fácil abandonar nossa zona de conforto e não envolvimento?

E se Jesus me chamasse para descer da minha cruz? “Chega de avaliar, observar e criticar. Vamos almoçar. Quero conversar com você.” A ameaça da intimidade seria demais? Se Jesus me chamasse pelo nome, isso me daria forças para romper minha casca? Isso destruiria minha posição segura de observador? Eu não estaria mais observando a fé de fora, mas sendo atraído de forma íntima e pessoal para o coração de Deus.

Lázaro não estava em uma árvore. Ele já estava em um túmulo. Em João 11, lemos sobre Jesus em pé do lado de fora de um túmulo, chamando: “Lázaro! Venha para fora!”. Lázaro sabia que estava morto. Ele tinha as estruturas da sepultura, um túmulo e tudo o mais. Estava desconectado da vida, isolado e alienado. Reconheço essa postura também. Às vezes, a vida simplesmente se esvai de uma pessoa. Relacionamentos tóxicos, rotina, dores passadas não resolvidas — mil coisas podem simplesmente drenar nossa vida até nos sentirmos como companheiros de quarto de Lázaro.

Jesus chamou Lázaro pelo nome. Jesus trouxe nova vida aos mortos. Imagine se incluíssemos nossos nomes pessoais nesse chamado. Não seria apenas um chamado genérico: "Saia do seu túmulo". Seria, antes, uma ordem com o nosso nome atrelado.

Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus para terminar de preparar seu corpo para a morte. Quando encontrou o túmulo vazio, ficou com o coração partido. Ela se abaixou para olhar dentro e viu dois anjos. Um deles lhe disse: "Por que você está chorando, minha senhora?"

Ela disse: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o encontrar”. Acredite, isso é motivo para chorar. Mas, como conta o Evangelho de João, Jesus estava bem ali, atrás dela. Muitas vezes isso acontece, mas estamos tão imersos em nossa dor, nossos conflitos, nosso desespero que, como Maria, não o reconhecemos.

Quando ela se virou para ir embora, viu Jesus, mas não o reconheceu. Ele lhe fez a mesma pergunta: "Por que você está chorando?". Ela pensou que ele fosse um funcionário da manutenção. "Diga-me onde o senhor levou o corpo, e eu cuidarei dele."

Jesus respondeu com apenas uma palavra; disse o nome dela: “Maria”. Foi então que ela o reconheceu. Dois anjos e uma visão não bastam quando se procura aquele que um dia nos chamou pelo nome para fora da cruz, para fora do túmulo ou para nos libertar das garras de sete demônios. Dois anjos e uma visão não bastam para me tirar da cruz. Mas alguém que conhece o meu nome pode me alcançar. Jesus chama as suas ovelhas pelo nome e elas reconhecem a sua voz (João 10).

Alguém contou ter ouvido uma criança rezar a Oração do Senhor desta forma: “Pai nosso, que estais nos céus, como sabeis o meu nome?” Mateus não escreveu a Oração do Senhor dessa maneira, mas a criança revelou uma das questões mais profundas da vida. Será que o Eterno me conhece? Pelo nome?

A pergunta “Será que o Eterno me conhece?” pode ser profunda, mas o mesmo se pode dizer da outra pergunta: “Será que eu me conheço?”. Muitas crianças no início da adolescência dizem que não gostam do próprio nome. Dizem que deveriam ter outro nome. Isso faz parte da luta pela identidade, da busca contínua pelo autoconhecimento.

Quando Deus apareceu a Jacó em Gênesis 35, Ele o abençoou e disse: “Seu nome é Jacó, mas você não será mais chamado de Jacó. Seu nome será Israel”. Deus também deu a Abrão um novo nome: Abraão. E Sarai passou a se chamar Sara. Por que eles precisavam de novos nomes? Talvez porque Deus os conhecesse melhor do que eles mesmos.

No livro do Apocalipse, a promessa é: “Ao vencedor, darei do maná escondido e também uma pedra branca, e na pedra branca estará escrito um novo nome que ninguém conhece, senão aquele que o recebe” (Apocalipse 2:17b).

Talvez eu não saiba meu nome. Talvez exista um "eu" tão profundo que eu nem o reconheça. Se Deus lhe desse um novo nome, qual seria? Quando recebermos aquela pedra branca, esse novo nome despertará, de dentro, alguém que sempre foi apenas uma potencialidade, raramente realizada. Será o nosso verdadeiro nome, o que T.S. Eliot chamou de nosso "nome singular inefável, efável, efã-inefável, profundo e insondável"

Enquanto isso, estarei em algum lugar à espera que alguém chame meu nome.

Ministro ordenado, Bob Bowman é professor emérito de religião na Universidade de Manchester, em North Manchester, Indiana.