Os fundamentos teológicos da ética pessoal
Declaração da Igreja dos Irmãos de 1966
(Declaração adotada pela Conferência Anual da Igreja dos Irmãos em Louisville, Kentucky, em junho de 1966. O texto não foi alterado.)
Historicamente, a Igreja dos Irmãos tem se empenhado seriamente em orientar sua conduta em ética pessoal por meio do estudo cuidadoso e ponderado do Novo Testamento. Os Irmãos sempre acreditaram que a fé do Novo Testamento deve ser expressa nas diversas situações da vida. Portanto, seu comitê abordou a questão considerando primeiramente o testemunho bíblico a respeito da conduta pessoal e, em seguida, uma análise histórica e teológica da compreensão dos Irmãos sobre o estilo de vida cristão.
Acreditando que a questão exige mais do que sugestões gerais, consultamos irmãos de toda a Irmandade para identificar os problemas de conduta pessoal mais urgentes na vida contemporânea. A maior parte do nosso relatório é dedicada a esses problemas. Em consonância com as instruções da Conferência Anual, incluímos uma resposta à questão sobre jogos de azar e apostas no relatório completo.
I. O Testemunho Bíblico
A ética cristã começa com a liberdade, a santidade e o amor inabalável (chesed) de Deus, que se revelou mais claramente na vida histórica de Jesus Cristo. Ele é o princípio e o fim, o criador, sustentador e governante de tudo. A conduta é correta na medida em que se submete à reivindicação de Deus em Sua santidade e justiça. O relacionamento entre os homens é definido pela autorrevelação de Deus aos homens. Porque Deus é amor, devemos amar uns aos outros, e porque Ele é santo, somos chamados a ser um povo santo.
Contudo, em sua liberdade, os homens pecam contra Deus ao ignorarem e se revoltarem contra o que Ele lhes exige, vivendo segundo seus próprios padrões egocêntricos de justiça e liberdade, em vez de fazerem o que é agradável aos Seus olhos. A consequência do pecado para a humanidade é uma vida de ansiedade, rebeldia, falta de sentido, injustiça social e morte (João 1:10-13; Romanos 1:24-27). Os homens preferem a indolência e o isolamento à liberdade que provém de um relacionamento de aliança com Deus.
Diante do desespero humano, Deus se apresenta como Aquele que, em seu amor sofredor, redime e reconcilia os homens, restaurando-os a um relacionamento correto com Ele. O caráter da liberdade e do amor altruísta de Deus se manifesta com maior clareza em Jesus de Nazaré, em quem toda a plenitude da divindade se dignou habitar. Quem vê o Cristo, vê o Pai. Sua vida e seus ensinamentos, sua cruz, sua ressurreição e seu Espírito são o fundamento de toda a ética cristã.
O cristão busca responder ao chamado de Deus, viver em harmonia com Ele, glorificá-Lo, fazer o que é agradável aos Seus olhos, amá-Lo e ser-Lhe fiel. O resumo da ética pessoal dado por Jesus é: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37-39). O duplo mandamento deixa brilhantemente claro que o amor a Deus sempre implica o amor ao próximo; a ética pessoal sempre envolve a ética social.
Os Evangelhos expõem qualquer tentativa de separar um ato de sua motivação. Deus não olha apenas para o ato externo, mas para a sua totalidade, incluindo a motivação. Algumas das condenações mais severas de Jesus recairam sobre aqueles que fingiam ser fiéis, enquanto suas intenções eram corruptas. A ira amarga é passível de pena de assassinato, e a luxúria, de adultério (Mateus 5:21-30). Da mesma forma, intenções nobres não são suficientes, mas devem ser acompanhadas de “bons frutos”. Motivos, meios e consequências devem ser vistos em sua inter-relação ao avaliar se são agradáveis a Deus. O ato deve sempre ser considerado em sua plenitude.
O evangelho não é um novo código de conduta. O legalismo busca em uma lei ou princípio as exigências específicas de Deus em uma situação particular, mas o amor transcende a descrição legal mais rigorosa de um ato. O amor não rouba, não mata e não comete adultério. É paciente e bondoso, não arrogante nem grosseiro; alegra-se com a justiça. O amor não ignora a injustiça, mas sempre busca justiça para o próximo.
O Novo Testamento aponta para o Espírito de Cristo renovando a comunidade, inspirando os homens a fazerem o que é agradável aos Seus olhos. Morremos para os caminhos do pecado e agora ressuscitamos no Seu Espírito, para que possamos andar em novidade de vida. Quem vive sob o Espírito cumpre o que a lei exige, sem a obediência servil e entorpecedora à lei. Gálatas 5:22-25 pode ser interpretado como uma declaração notavelmente precisa do novo Espírito que Jesus Cristo liberou no mundo: “Mas a colheita do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Tais coisas não se tratam de lei. Os que pertencem a Jesus Cristo crucificaram a natureza inferior com as suas paixões e os seus desejos. Se o Espírito é a fonte da nossa vida, que o Espírito também dirija o nosso caminho” (NEB).
O Novo Testamento reconhece que a reflexão em oração e a sabedoria são necessárias para tomar decisões éticas corretas. Paulo exorta continuamente seus irmãos cristãos a aprenderem o que agrada a Deus e a se encherem do conhecimento da Sua vontade. Nossas decisões só podem ser adequadas a Deus quando consideramos constantemente as Escrituras e quando consultamos constantemente aqueles que compartilham da mesma fé, cujo discernimento muitas vezes pode corrigir o nosso (Mateus 18). Ao mesmo tempo, precisamos estar completamente familiarizados com os fatos de uma situação, incluindo qualquer conhecimento científico ou serviços profissionais disponíveis. Escolhas responsáveis devem ser bem fundamentadas.
Cristãos sinceros podem discordar sobre a vontade de Deus em uma situação específica. Nesses casos, precisamos exercer caridade e paciência, lembrando que não somos o juiz final de nossos irmãos. Tal tolerância não precisa nos levar a abandonar a busca por consenso em grupo e, assim, deixar a moralidade apenas para a decisão individual. Embora muitas variações sejam encontradas no Novo Testamento, ele está repleto de relatos de pessoas que buscaram consenso sobre a vontade do Senhor para elas. Aqueles que vivem no Seu Espírito buscarão consenso sem impor seus pontos de vista uns aos outros.
II. A vida cristã no mundo contemporâneo
A história trouxe mudanças para a vida moderna que têm um impacto crítico sobre a ética e a conduta pessoal. Essas mudanças incluem o terror de uma possível destruição nuclear, a crescente secularização dos valores religiosos, a impessoalização das relações humanas, a industrialização e a automação do trabalho, o abismo entre ricos e pobres, o conformismo da cultura de massa e a perda generalizada de identidade e significado. Novas situações exigem novas maneiras de expressar as preocupações tradicionais dos Irmãos com a fraternidade, a missão e o serviço.
Por vezes, os irmãos têm respondido mais claramente ao chamado de Deus para a santa separação do mundo do que ao Seu exemplo de amor reconciliador ativo no mundo. A ética e a conduta pessoais têm sido frequentemente guiadas por ideais de abstinência, limpeza e pureza que não são afetados pelos padrões do mundo. Em outras ocasiões, e especialmente nos últimos anos, os irmãos têm reconhecido que a exigência de Deus para a separação também se manifesta através do engajamento altruísta no mundo. Essa nova atitude entre os irmãos é certamente um reconhecimento de que Deus separa um povo santo para Si, a fim de enviá-lo como agentes e testemunhas do Seu amor redentor entre os homens. A mesma devoção obediente que leva os cristãos a se separarem do mundo também chama a igreja ao engajamento reconciliador no mundo.
A análise da fé do Novo Testamento e das condições do mundo contemporâneo sugere um estilo de vida que poderia ser caracterizado da seguinte forma:
1. Compromisso altruísta com o mundo. Uma atitude de serviço pode ser aliada a uma missão franca e ativa no mundo. Os cristãos podem estar ativamente, até mesmo de forma incisiva, engajados em uma obra de reconciliação em todas as esferas da vida.
2. Conciliar o amor com um senso de justiça. O amor genuíno não subjuga o outro, nem encobre as reais dificuldades interpessoais. Embora reconheçamos as diferenças, ainda assim somos chamados a agir sem vergonha diante da injustiça.
3. Uma devoção obediente que transcende o legalismo e permanece aberta a novas situações. Uma devoção paciente, humilde e sincera pode fazer parte da atenção cuidadosa ao trabalho diário. Ao mesmo tempo, o cristão possui uma confiança que lhe permite estar aberto à variedade de novas situações do mundo moderno.
III. Áreas Especiais de Preocupação
Áreas da vida pessoal que foram especialmente desafiadas pelas rápidas mudanças da vida contemporânea podem ser agrupadas sob os seguintes títulos: integridade pessoal, relações familiares, preocupação com o próximo, vida e propriedade. Cada um desses tópicos é tratado diretamente no Sermão da Montanha e nos Dez Mandamentos, bem como em toda a Bíblia.
Integridade Pessoal
O chamado de Deus leva o homem a uma auto-responsabilidade plena. A Bíblia descreve a maturidade pessoal como um relacionamento de devoção completa e sincera a Deus (Êxodo 20:3; Mateus 22:37), sempre acompanhado de uma preocupação amorosa pelo próximo (Mateus 22:39). A verdadeira auto-responsabilidade se manifesta em estar centrado em Cristo, aceitando de bom grado o caminho da cruz, tendo a mesma mente que Cristo e crescendo em todos os aspectos até atingir a plenitude da sua estatura. No poder da presença de Deus, somos libertos das forças avassaladoras da despersonalização em nossos dias (Romanos 8:2).
A vocação primordial de cada pessoa é aceitar o chamado de Deus para a sua vida. Os irmãos há muito reconhecem a integridade, a humildade e o serviço inerentes ao chamado de Deus. O que é extremamente necessário hoje é a compreensão de que o chamado de Deus se estende a cada pessoa em sua ocupação secular no mundo. Seja em casa ou no escritório, no campo ou na fábrica, todo cristão é chamado e julgado por Deus nas atividades específicas dessa ocupação.
A Bíblia repetidamente exorta à integridade na fala (Êxodo 20:7; Mateus 5:33-37). O uso contínuo de linguagem profana certamente prejudicará o relacionamento com Deus. Contudo, é preciso lembrar que nenhuma fala é verdadeiramente verdadeira a menos que brote de um amor sincero a Deus e ao próximo. A verdade não deve ser definida de forma restrita em termos de adesão a um padrão fixo, em uma época em que a rede de obrigações é cada vez mais complexa. Aqueles que são fiéis à verdade de Deus tornam-se mais responsáveis por suas obrigações, tanto em palavras quanto em ações. A duplicidade no preenchimento de formulários de imposto de renda ou a cola em sala de aula dificilmente podem ser consideradas um uso verdadeiro da linguagem.
Juramentos indicam fraqueza na integridade da fala, e não força. Calúnias e outras palavras maliciosas não procedem do Espírito da Verdade. Tanto o ocultamento quanto a expressão de sentimentos profundos se tornam um mau uso da fala, fora da responsabilidade para com o próximo (Efésios 4:25-29).
Relações familiares
O amor entre um homem e uma mulher é um dos dons mais sagrados de Deus para a humanidade. Tal amor só pode ser plenamente realizado no casamento, que é um reflexo da relação entre Cristo e a Sua Igreja. A fidelidade entre marido e mulher é um pilar da ética pessoal para o cristão. Separar a sexualidade do compromisso pessoal e usá-la como um prazer passageiro ou como meio de tornar bens materiais mais comercializáveis é uma violação do dom de Deus para o homem. Embora a Bíblia não defenda a repressão do impulso sexual, ela deixa claro que a intimidade sexual pertence a uma aliança vitalícia entre um homem e uma mulher (Mateus 19:3-9). Em uma cultura saturada de estímulos sexuais, os jovens são convidados a refletir se a intimidade que expressam no namoro reflete o grau de compromisso que assumiram. As intimidades mais profundas devem ser reservadas para uma promessa pública, para toda a vida, de cuidar e amar um ao outro.
A preocupação com a expressão adequada da relação entre homem e mulher muitas vezes leva os Irmãos a questionarem a dança. Danças sociais, quadrilha ou danças folclóricas, realizadas em ambientes bem supervisionados e planejados, podem proporcionar um ambiente saudável para o desenvolvimento heterossexual normal entre os jovens. Por outro lado, muitos tipos de dança moderna são excessivamente provocativos e indiscretos, e outros ainda refletem a falta de sentido e o niilismo de grande parte da vida contemporânea. A decisão entre dançar de forma adequada ou inadequada deve ser tomada individualmente, à luz dos ideais cristãos, após cuidadosa consideração das questões envolvidas e em conversas entre pais e filhos, cristãos e seus irmãos na fé. Alguns optarão por não dançar. Uma consideração importante é que o físico não seja priorizado em detrimento do social e do estético. Pessoas casadas precisarão considerar como seu casamento e vida familiar serão afetados pela dança com o cônjuge de outra pessoa. No que diz respeito à dança ou a qualquer forma de recreação, o cristão desejará fazer o que é saudável e benéfico.
A venda de pornografia é um grave problema social em nossos dias. O cristão é chamado a se afastar da literatura e do entretenimento cujo propósito e efeito principais são a estimulação sexual, sem qualquer preocupação real com as pessoas envolvidas. Por outro lado, os cristãos não devem rotular rapidamente como "imundos" ou "pornografia" obras literárias cujo objetivo principal é a reforma social, mas que utilizam uma linguagem realista da época.
Assim como o amor entre marido e mulher, o amor entre pais e filhos também é um dom sagrado de Deus. Quando o relacionamento entre pais e filhos se perde, a continuidade entre as gerações fica prejudicada (Êxodo 20:12). Pais que amam seus filhos os instruem no caminho da vida cristã, e filhos que amam seus pais os honram e respeitam, mesmo quando discordam (Efésios 6:1-4; Colossenses 3:20,21). A instrução de nenhuma igreja ou escola pode substituir a dos pais.
A delinquência juvenil parece ser, na maioria das vezes, uma fuga da autoridade indiferente ou da negligência de uma geração adulta. A delinquência torna-se sintoma da falta de amor entre marido e mulher, pais e filhos. Os pais devem cuidar dos jovens estabelecendo limites sem serem repressivos e incentivando-os à independência sem os abandonar. Os jovens devem respeitar a autoridade dos pais, enquanto buscam a verdadeira individualidade por meio da independência de julgamento.
Preocupação com o vizinho
A Bíblia deixa abundantemente claro que a ética pessoal jamais deve ser dissociada da preocupação com o próximo. A ética pessoal deve sempre incluir a responsabilidade do indivíduo para com as questões sociais mais amplas de nossa época. O crente está ligado a outros de tal forma que a preocupação de um é a preocupação de todos (1 Coríntios 12). O evangelho proclama a presença do Reino de Deus, a nova sociedade entre os homens. Toda a humanidade será finalmente unida em Jesus Cristo. Nele, a distinção do Antigo Testamento entre o próximo e o estrangeiro é superada (Lucas 10:29-37). Todos os homens se tornaram próximos. O cristão deve conviver livremente com pessoas de todas as raças e classes sociais. O cristão de hoje deve aproveitar todas as oportunidades para transformar os costumes, práticas e atitudes sociais que discriminam grupos inteiros de pessoas.
A educação, até o limite da capacidade e das oportunidades de uma pessoa, é desejável para servir ao próximo. Contudo, em nossos dias, a educação muitas vezes se torna apenas um veículo para riqueza, prestígio e poder. Sem uma preocupação amorosa com o próximo, os procedimentos educacionais se tornam uma farsa e o diploma, um meio de dominação social. O cristão é chamado a compreender que o amor responsável pelo próximo está no cerne de toda educação genuína. O cristão não buscará um curso de educação primordialmente por poder e prestígio, nem usará meios ilícitos para obter um diploma.
A busca pelo lucro nos negócios não altera o fato de que o dever primordial do homem é servir e demonstrar amor ao próximo. O empresário cristão é chamado a conduzir seus negócios primordialmente para o serviço ao próximo e a considerar seus funcionários e concorrentes como aqueles pelos quais ele tem responsabilidade. Ele não se envolverá em um negócio que não sirva verdadeiramente ao consumidor, nem o conduzirá de maneira que ignore o bem-estar do próximo. Da mesma forma, o trabalhador cristão cuidará tanto de seu empregador quanto de seus companheiros de trabalho. Ele não se envolverá em um trabalho que desconsidere clara e diretamente o próximo, nem apresentará informações enganosas sobre seu trabalho ao empregador.
A arte do governo secular deve ser uma grande preocupação para todo cristão, especialmente em uma sociedade democrática onde todos têm o direito à liberdade de expressão e onde a vontade da maioria prevalece. Embora insistam na separação entre Igreja e Estado, os cristãos consideram as agências governamentais locais, nacionais e mundiais como sujeitas ao Reino de Deus. O envolvimento político com o propósito de alcançar a reconciliação e a paz em nossos tempos é uma das marcas da verdadeira obra da Igreja no mundo. Os cristãos são chamados a se manifestar sobre questões públicas e a votar em candidatos, leis e plataformas após cuidadosa consideração dos temas. Cristãos com vocação política são chamados a se candidatar a cargos públicos, mas devem evitar cometer os pecados da calúnia e da deturpação dos fatos. Uma vez no cargo, o político cristão não deve manipular o Estado para promover quaisquer fins específicos da Igreja. Através da participação ativa na política em diversos níveis, desde o eleitor individual até o ocupante de cargos públicos, os desafios se apresentam em inúmeras áreas onde os cristãos podem atuar: corrigindo injustiças sociais; expondo a ganância e a exploração pelo que são; arrecadando fundos para ajudar a curar os inúmeros males de nossa sociedade; e permitindo que a Igreja tenha a liberdade de cumprir sua missão. Contudo, o cristão, seja eleitor ou ocupante de cargo público, não deve usar os tão deturpados preceitos “Dai a César o que é de César” (Marcos 12:17) e “Todos devem sujeitar-se às autoridades governantes” (Romanos 13:1) para justificar atos claramente não cristãos e contrários à mensagem central do Novo Testamento. A liderança responsável, em prol da paz e da ordem, é uma tarefa solitária, mas que deve ser assumida, mesmo correndo o risco de incompreensão, perseguição ou perda do apoio popular.
A questão da guerra e da paz tornou-se uma questão de sobrevivência nesta geração. A posição oficial da Igreja dos Irmãos continua sendo a de que, à luz do Espírito e dos ensinamentos do Novo Testamento, a guerra é pecado. Os cristãos são chamados a trabalhar por condições e ambientes nos quais os problemas internacionais possam ser resolvidos sem o recurso à força violenta. Reconhecendo as dificuldades dos dilemas éticos que frequentemente surgem entre o amor e a justiça, a Igreja admite a divergência de consciência em relação ao serviço militar. Não obstante, os Irmãos são chamados a testemunhar sua fé de que o Serviço de Cristo, o caminho do amor reconciliador, é de poder e relevância supremos no mundo atual. Precisamos de um senso de urgência na busca por alternativas à destruição militar. Os jovens são encorajados a escolher um serviço alternativo. Encontrar os meios para a paz é o chamado de Deus para a nossa época histórica.
Vida e Propriedade
A vida e os bens materiais são dádivas de Deus ao homem. Como alma vivente e pela graça de Deus, o homem é capacitado a dominar a terra e a cuidar do seu próximo. A separação de Deus traz espinhos e cardos, ansiedade, doenças, isolamento e morte ao homem (Gênesis 3). Em Jesus Cristo, o homem encontra vida em abundância, a esperança da ressurreição e a promessa de um novo céu e uma nova terra. A vida e os bens materiais assumem seu devido significado quando o homem reconhece que deve ser um bom administrador das dádivas de Deus, usando-as para nutrir e cuidar do seu próximo.
Uma das ameaças à vida em nossos dias é o uso generalizado de estimulantes e narcóticos. Tais drogas frequentemente representam uma forma de escapar da própria individualidade. Os cristãos devem estar cientes das drogas que têm o poder de levar os homens à escravidão e devem usá-las somente com orientação médica. Embora a fé de um cristão não possa ser julgada simplesmente por uma questão como o tabagismo, os irmãos são encorajados a considerar questões de saúde e a evitar o que é ofensivo para os outros em sua decisão sobre fumar. Os cristãos devem ter liberdade não apenas de códigos legalistas, mas também da escravidão a hábitos nocivos.
Em nossos dias, o consumo de bebidas alcoólicas e suas consequências tornaram-se um dos maiores problemas sociais. Por prejudicar a acuidade mental e física, o álcool é a causa de grande parte dos ferimentos e mortes que ocorrem nas estradas. Por ser uma droga depressora, o álcool embota a sensibilidade, libera as inibições e torna o homem incapaz de responder ao amor de Deus ou ao próximo. Por ser uma droga que causa dependência em muitas pessoas, o álcool resultou na doença do alcoolismo, cuja incidência só é superada por doenças cardíacas e câncer nos Estados Unidos. É urgente que os cristãos aproveitem todas as oportunidades para destacar a necessidade de maior atenção e cuidado com aqueles que sofrem de alcoolismo. Em seu cuidado com o próximo, o cristão é chamado a testemunhar em sua vida pessoal contra os males do álcool e a se opor às enormes pressões sociais e econômicas que incentivam seu consumo.
Em uma sociedade abastada, na qual muitas pessoas buscam segurança através de bens materiais, é preciso afirmar repetidamente que a vida não consiste na abundância de coisas e que a Boa Vida não se encontra em posses materiais. Os cristãos devem enxergar a riqueza como uma bênção potencial para o estabelecimento da Boa Vida entre todos os homens e nações, ou como um perigo maior que a pobreza. O luxo não deve impedir o envolvimento em questões sociais como direitos civis, pobreza ou decadência urbana, nem o materialismo deve nos separar das grandes questões de nossos dias. Em sua busca por segurança, o cristão é chamado a resistir às muitas pressões do materialismo e a praticar a “vida simples” como fiel administrador de Deus em nosso tempo: comprar dentro de suas possibilidades financeiras; evitar gastos excessivos e compras a prazo com juros altos; renunciar a luxos incompatíveis com uma vida de serviço e sofrimento; e priorizar a contribuição responsável para a igreja e seus ministérios mundiais.
Um dos problemas sociais mais críticos da atualidade é a popularidade generalizada de pequenas loterias e jogos de azar, dos quais o crime organizado obtém sua principal fonte de renda. A esperança de ganhar algo sem esforço é uma fuga da realidade, a ponto de, para muitas pessoas, o jogo ser um hábito incontrolável. A vida diante de Deus não é uma esperança irrealista de um golpe de sorte, mas sim uma forma de encarar o futuro com a confiança de que Jesus Cristo revela o amor e o cuidado inabaláveis de Deus pela humanidade. Os riscos que ela corre são os da fé, empreendidos com amor e preocupação pelo próximo, e as surpresas que ela espera não são fruto do acaso, mas sim a livre atuação da graça de Deus. O Espírito de Cristo é o da caridade, do sacrifício e da doação de si, e não o do jogo para obter a propriedade do próximo, por mais nobre que seja o uso dado ao ganho. Os cristãos são chamados a agir e a se manifestar abertamente contra as fontes do crime organizado e a trabalhar pela libertação daqueles que são tão oprimidos economicamente que se inclinam ao jogo. É preciso reconhecer que alguns prêmios apelam principalmente ao reconhecimento ou ao prazer, e não ao ganho por acaso. O cristão deve distinguir entre jogos de azar e brincadeiras inocentes em suas conversas com outros cristãos.
Conclusão
A discussão acima sobre preocupações específicas pode ser útil somente enquanto os irmãos "tiverem fome e sede de justiça" sob a amorosa reivindicação de Deus, como um povo servo no meio do mundo, com a certeza de que o Espírito de Cristo está vivo e atuante em todas as esferas da vida contemporânea, reconciliando os homens uns com os outros e com Deus.
W. Clemens Rosenberger, Presidente
Sra. W. Newton Long, Sr.
Donald E. Miller
Robert McFadden
Burton Metzler
Kurtis F. Naylor
Ata da Conferência Anual de 1966: Relatório aprovado.
